• Empatia Criativa

Visão Sistêmica - Materializando a Resiliência e a Empatia

Escrito por Sabrina Ramiles: https://www.linkedin.com/in/sabrinaramiles/

Pelo nome, parece até que vamos falar de fluxogramas, diagramas ou coisas complexas. Mas, na verdade, a prática da visão sistêmica é muito simples e é um exercício constante para contribuir com a empatia e a resiliência, palavras que estão tão presentes na atualidade e que são muito mais completas do que a simples visão delas de forma individualizada.


Ter uma visão sistêmica é ter a capacidade de observar um cenário completo, permitindo que façamos uma análise de todos os fatores que resultaram em alguma situação específica.


Eu sempre uso um exemplo muito interessante, que foi o ponto de partida para que eu começasse a exercitar essa prática. Existe um documentário chamado Humanos, disponível na Netflix e no Youtube, que é composto por diversos esquetes que mostram a capacidade da resiliência humana.


São pessoas que trazem depoimentos da raiz do que é ser humano, contando um pouco das suas vidas, e é um documentário que vale muito a pena assistir.


Um dos esquetes me chamou a atenção, em particular.

Trata-se do depoimento de Leonard Scovens, dos Estados Unidos. Um assassino condenado a prisão perpétua.


Começando a contar a história dele pelo fim, ele foi condenado a prisão perpétua pelo pior dos crimes: ele assassinou uma mulher junto com seu filho de seis anos de idade. A mãe dessa mulher, uma senhora octogenária chamada Agnes Furey, sofreu muito com a perda da filha e do neto, e após o seu período do luto, o que ela mais queria, era poder conversar com o assassino de sua filha e neto.

Foi então que eles começaram a trocar cartas, e através dessas cartas, ela conheceu a história da vida de Leonard.


Leonard havia crescido com seu pai, que o agredia desde muito pequeno de formas terríveis e dolorosas, e sempre depois das agressões, seu pai dizia que "fazia aquilo, porque o amava". Leonard, cresceu com uma apresentação de amor fundamentada na violência, entendendo que ele feria as pessoas porque as amava. Na construção dele enquanto ser humano, ele entendeu que, ao matar aquela mulher e seu filho, estava praticando uma forma de amor e de libertação.


Então depois que foi preso e condenado a prisão perpétua, Leonard teve a oportunidade de conhecer e entender a visão mais pura do que era o amor. Agnes, em suas cartas, doava a ele uma atenção genuína e oferecia um pouco de um amor que ele nunca havia recebido, e ela deu a ele um perdão sincero, porque essa mulher sabia que nada de mal que ela fizesse a ele traria sua filha e neto de volta, mas ela entendeu que poderia fazer melhor por uma pessoa que sequer entendia o que era o melhor.


Com esse depoimento emocionante, vem uma análise sistêmica dolorida e profunda: todo e qualquer ser humano acaba transmitindo para o mundo apenas o que aprendeu.


Ao longo da minha vida eu vivi alguns relacionamentos abusivos e passei por um processo muito longo para ressignificar tudo e compreender o cenário completo com o objetivo de colocar a minha cabeça no lugar. Essa dinâmica, que eu apliquei na minha vida, me fez entender melhor até mesmo que o perdão é muito próximo da compreensão, e que para toda nova ação, há a necessidade de uma compreensão sistêmica que nos permite ressignificar situações desagradáveis do passado, que possam refletir no nosso próprio futuro e no futuro de quem nos cerca.


A frase "eu te perdoo", me colocava em um lugar de superioridade que eu não deveria ocupar, partindo do princípio de que somos todos iguais. Então, após analisar sistemicamente o cenário todo e ressignificar no presente, essa frase deu lugar a uma nova frase que é: "eu compreendo o que te leva a agir dessa forma e acolho sua história, falhas e aprendizados", o que necessariamente nos desobriga a absorver as feridas que nos causaram, deixando-as guardadas no passado, que é onde elas devem pertencer, e permitindo que essas sejam apenas aprendizados.


Ao invés de precisar perdoar alguém, eu passo a tentar mostrar para as pessoas que é possível agir de formas diferentes, usando toda a nossa história como lições ricas, que nos tornam cada vez melhores. Isso, porque as ações que tomamos hoje reverberam, e a prova disso é a herança histórica dos nossos pais, que muitas vezes são transmitidas para a gente. Ou ex-relacionamentos, ex-amigos e até mesmo pessoas que passaram na nossa vida por um curto período de tempo. Se o ato de bocejar reverbera, imaginem só as ações.


A linha da resiliência e da empatia é muito congruente com a linha da visão sistêmica. Ela tende a olhar para frente, trazendo a leveza e consistência dos nossos próprios próximos passos, mantendo o olhar para trás e para toda a história que nos construiu enquanto seres humanos de forma ressignificada, e sem a sensação de dor, nostalgia, culpa ou desprezo. É como aprender a fazer regra de três na escola, e utilizar ela de formas diferentes e até mesmo melhoradas na vida adulta.


A visão sistêmica mescla a nossa própria história com a história de cada pessoa que está dentro da nossa linha da vida, e transforma tudo isso em uma nova visão de mundo, fazendo com que sejamos cada vez mais resilientes, cada vez mais empáticos, e cada vez menos pesados de sentimentos e dor. É uma forma delicada de carregar uma bagagem gigante e rica, porém leve.


Um exercício que deixo aqui para começarmos juntos nessa jornada, é tentar entender por que uma pessoa tem atitudes que te ferem. Talvez essa pessoa esteja passando por um dia ruim, talvez essa pessoa tenha aprendido que essa é a melhor forma de fazer as coisas acontecerem, talvez você tenha tocado em um machucado não cicatrizado dessa pessoa sem querer e por não conhecer a história dela, talvez ela não tenha a percepção de que tudo o que fazemos, se torna um reflexo para o mundo. Então, que tal tentarmos esse exercício nos nossos próximos obstáculos?


A resiliência e a empatia são práticas que valem a pena termos na nossa vida, e a visão sistêmica é uma forma de materializar essa prática. Vamos juntos nessa jornada?


Espero que gostem do texto, e principalmente, que continuem acompanhando. Feedbacks são sempre muito bem-vindos!

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