• Empatia Criativa

Tudo o que queremos é um dia ensolarado.

Escrito por Melina Tamellini: https://www.linkedin.com/in/melinatamelini/


Que dia bonito, sol brilhando, céu azul!

Eu estava animada! Tinha finalmente entrado em uma agência grande. Era o momento de ter meu trabalho reconhecido, de conhecer pessoas, fazer portfólio. Eu estava muito feliz. Era o ponto de virada da minha carreira. Era como um dia ensolarado com céu azulão. Ou assim eu pensava.

As primeiras nuvens apareceram no céu.

Reparei que os profissionais de todas as áreas estavam sobrecarregados. Metas, metas e mais metas, com promessas de bonificação no final do ano. Além disso, a agência ficava longe da minha casa, e eu ficava quase 4h por dia no transporte público.

"Quem sabe isso é uma fase, não? Afinal, todo o lugar tem momentos assim. E a agência oferece café da manhã, da tarde, refrigerante e cerveja liberada. Eu poderia sair mais cedo de casa, pegar menos trânsito e tomar café por lá.”

O céu azul foi desaparecendo, mais nuvens cinzas foram chegando.

Sou apaixonada por criar, por isso estava animada com as possibilidades, os clientes importantes e o tamanho dos trabalhos. A minha equipe era talentosa e empenhada. Tinha tudo para dar certo!

Ou assim eu pensava.

Comecei a perceber que reuniões às 19h eram comuns. Apresentei um, dois, três, quatro trabalhos. Os feedbacks? Não, não é isso. Não, não está bom. Não, não está inovador o suficiente. Não, você precisa reinventar a roda em todos os trabalhos que você apresenta.

O prazo está curto? Se vira para entregar. Sair da agência no horário porque você tem um curso, como assim? O que você faz das 0h às 8h da manhã?

“Se meu trabalho não tá agradando, eu preciso fazer mais! A culpa é minha e eu preciso me esforçar. Não sou inovadora suficiente. O problema é comigo. Tudo bem reuniões no final do dia. Eu saio da agência mais tarde e não pego trânsito para ir embora. Aproveito e pego um refrigerante, é liberado né?"

Antes azul, agora o céu era cinza.

A pressão, ao invés de diminuir, só aumentava. Trabalhar no final de semana era comum. Um feedback que eu recebi, sobre um trabalho meu, em um sábado: isso aqui está um lixo, como você tem coragem de me apresentar isso?

Minha primeira crise de ansiedade (beirando o pânico) aconteceu em um sábado, após ter chegado em casa à 1h da manhã todos os dias naquela semana. A culpa só aumentava. Passei a duvidar de mim mesma e das minhas capacidades, criando um ciclo vicioso de medo e insegurança.

"Como eu tinha coragem de apresentar isso? O problema é comigo. Sou fraca, não tenho capacidade, não sou criativa. Não deveria estar nem aqui. Preciso me esforçar, trabalhar mais, mostrar o meu valor, senão serei demitida. Mas pelo menos a agência oferece café da manhã, da tarde, refrigerante e cerveja liberada. É assim que é crescer na vida, né? Preciso trabalhar enquanto eu tenho energia.”

O céu estava preto. Chuvas, trovões, raios.

Passei a chegar cedo e sair tarde, trabalhava três turnos por dia. Barzinho? Não, estava na agência. Aniversários? Só dava uma passadinha, pois precisava trabalhar. Namoro? Nem se fala. Eu não fazia mais nada, afinal, não tinha tempo, precisava trabalhar. Não lia um livro. Não ia mais ao cinema. Não via mais seriados. Não sabia mais nada o que estava acontecendo. Minha vida era casa-trânsito-agência-trânsito-casa.

“Ah, tudo bem em estar trabalhando demais. O mercado é assim mesmo, eu preciso me adaptar. Eu sou fraca, preciso me ajustar. Se eu acordo com febre pela manhã, tomo um remédio para baixar e está tudo bem. Afinal, se eles conseguem, eu consigo também. Ah, a agência oferece café da manhã, da tarde, refrigerante e cerveja liberada, né? Já que eu não tenho tempo de almoçar, é isso mesmo que eu vou comer - bom que eu economizo. Depois eu resolvo minha saúde"

E então tudo mudou.

Cheguei em um ponto que estava exausta. Minha alegria e empolgação tinham ido embora. Isso era vida? Para ter sucesso, eu precisava me perder assim?

Eu fui um pouco para rua, fazer um intervalo. O dia estava bonito, ensolarado, sem nem uma nuvem no céu. Ali eu entendi que as coisas não precisavam ser desse jeito. Era o tipo de situação que o meu sangue e suor não jamais seriam suficientes. O problema não era comigo.

Voltei e pedi demissão e senti um peso enorme sair das minhas costas. E café da manhã, da tarde, cerveja e refrigerantes liberados não compensaram o dano que minha autoestima e autoconfiança sofreram - carrego essas dúvidas até hoje.




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*As crônicas são baseadas em experiências reais de mulheres, profissionais, atuantes no mercado de Comunicação do Brasil. Por isso, criteriosamente preservamos a identidade de cada participante.

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