• Empatia Criativa

Sua ideia me vale, mas não a sua presença.


Escrito por Pâmela Araujo: https://www.linkedin.com/in/p%C3%A2mela-araujo-16b17134/

Portfólio: https://www.behance.net/pamalves


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Depois de anos em busca de uma boa oportunidade, finalmente havia conseguido uma posição de Head na minha área. Me senti orgulhosa do trabalho desenvolvido e da minha trajetória.


Foram 10 anos atuando na área até receber esse convite e ele não veio da empresa em que eu estava. A decisão foi difícil, pois estava há três meses do meu casamento e entrando em uma vida completamente nova, além de todas as dificuldades financeiras que um jornalista sente no Brasil.


Decidi que não perderia essa oportunidade “incrível’’.


Sem ter um dia de descanso, finalizei meu trabalho com uma equipe em um dia e no outro já estava “comandando” uma nova.


A felicidade não durou muito.


Na primeira reunião de heads o primeiro choque: eu era a única mulher na posição e só havia mais dois homens na empresa que não tinham uma posição de chefia, frente as 8 mulheres que atuavam em posições subordinadas.


Decidi me dedicar ao máximo. Me empenhava para entrosar a equipe e entender os processos de cada uma das pessoas que eram minha responsabilidade, procurava apartamento e organizava os detalhes finais do meu casamento (tudo combinado previamente e aceito pelo dono da nova empresa).


Durante as reuniões eu era constantemente cortada e quando conseguia concluir um raciocínio, era basicamente ignorada. Continuei liderando minha equipe, aplicando processos, workshops e resolvendo as dores das colaboradoras.


Até que um novo cliente entrou em prospecção e nos foi lançado um desafio: criar toda a identidade visual e slogan da nova empresa do grupo. Vi ali a chance de finalmente me destacar diante da coordenação masculina.


Fiquei horas estudando sobre a área de atuação e ouvindo repetidamente a gravação que fiz do diretor da nova empresa sobre seus anseios e expectativas. Internamente decidimos fazer uma reunião de ideias para encontrar um direcionamento para criação da identidade visual e do novo slogan. Cheguei preparada, com dois slogans e um coringa. Estranhamente nesta reunião recebi a palavra, coloquei meu ponto e expus a frase que mais havia gostado. Logo depois 3, 4 ou 5 novas frases foram colocadas em votação. A minha foi escolhida, mas ainda faltava a aprovação do cliente.


No dia seguinte, todos reunidos, o cliente atento, a apresentação foi comandada pelo dono da agência e seu diretor (e melhor amigo). Na hora de apresentar o slogan o cliente mostrou total satisfação e elogiou o trabalho. Fiquei feliz com o resultado positivo, mas o choque desta vez, foi ainda maior. Até hoje aquelas palavras ecoam pela minha cabeça: letra por letra o dono da agência creditando o seu diretor como o criador do slogan.


Na hora, não esbocei nenhuma reação. Mais tarde, inconformada, solicitei uma reunião com o “chefe” para expor minha insatisfação.


Recebi a resposta de que aquele era um trabalho conjunto, então, rebati que aquilo não fazia sentido, pois a ideia havia sido creditada a apenas uma pessoa e não à equipe. Ele se exaltou e eu disse com todas as palavras que não aceitaria mais o machismo exposto desde o primeiro dia em que pisei naquela agência.


Ele pediu para que eu me acalmasse e afirmou que a empresa não era preconceituosa: “temos um gay, vários negros, mulheres e até uma colorida”. Não havia mais dúvidas, eu estava arrependida da decisão tomada.


Passei a ser excluída das reuniões do grupo e a ter o meu trabalho e de toda a minha equipe questionado, três, quatro vezes na semana. No entanto, seguia sendo solicitada na hora de dar novas ideias para clientes em prospecção.


Me casei, fui para a lua de mel e um dia antes de voltar ao trabalho recebi uma mensagem do “chefe” solicitando uma reunião na primeira hora do dia seguinte. Com a empresa vazia, ele me demitiu. Disse que durante o tempo em que estava fora foi decidida uma mudança de direcionamento da empresa.


No mesmo dia recebi uma mensagem pelo LinkedIn da nova head contratada para entrar no meu lugar, me perguntando sobre o trabalho. Contei minha história e ela declinou a vaga já aceita.


Eu ainda, precisei acionar um advogado para os meus direitos trabalhistas fossem pagos.

O dono dessa agência andou dizendo por aí, em tom de piada, que o motivo da minha demissão seria este: eu fazia o trabalho de uma mulher: fofocava e falava mal dele.

Os 10 anos de experiência no mercado de comunicação, não evitaram que eu fosse, mais uma vez, vencida por esta estrutura machista onde as suas ideias valem, a sua presença, não.


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*As crônicas são baseadas a partir das experiências reais de mulheres, profissionais, atuantes no mercado de Comunicação do Brasil. Por isso, criteriosamente preservamos a identidade de cada participante.

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