• Empatia Criativa

Sobre me tornar mãe

Escrito por Adriana Tamashiro: https://www.linkedin.com/in/adrianatamashiro/




Farei 40 anos em 2021, grávida da minha primeira gestação. Em mais da metade desse tempo eu me defini como indivíduo, mulher independente, capaz de virar o mundo de ponta cabeça através do trabalho. Isso durou até o momento em que anunciei minha gravidez.


Acho que não levei a sério quando me contaram o quanto a mulher é despersonalizada ao anunciar que se tornará mãe. Ninguém a chama mais pelo nome. É “mãezinha”, “mãe” ou “mamãe”. Nos e-mails profissionais, agora recebo: “Olá! Como vocês estão?” Pode parecer carinhoso, mas nada mais será por você, como ser único e com particularidades.


Desde o anúncio da gravidez ao resto da vida você será para a sociedade apenas mãe. Seria melhor se as pessoas descrevessem: “fulana de tal, diretora da porra toda e mãe”. Esse “e” faz muita diferença! Sem ele, você vira somente aquele ser abençoado e se esquecem que você pode continuar a odiar, reivindicar posições políticas, cargos e se descontrolar também (um alô para os hormônios!).


Mulheres gestantes NÃO são “puro amor”. Continuam sendo mulheres.


Eu sou autônoma há anos. Não tenho direito à licença maternidade ou alguns benefícios que um emprego CLT poderia me garantir. Confesso que, apesar de ter me planejado financeiramente, não imaginava que teria complicações na gestação e nem que cogitaria desejar a estabilidade de um registro em carteira (já passei desse dilema).


A gravidez, mais do que a pandemia e mais do que todas as crises de pânico e Burnout que já tive, me mostrou que sou vulnerável e forte ao mesmo tempo. Eu tinha as dimensões dessas duas características separadamente, mas ao engravidar, muitas coisas que não faziam tanto sentido passaram a fazer.


Partes chatas


1) Isso não acontece com todas as mulheres, mas as complicações da gestação me fizeram ter que recusar projetos que eu estava há anos lutando para fechar. Esse fato foi uma luta interna dentro de mim até realmente me conformar que não seriam portas se fechando para sempre


2) Perdi alguns clientes ao anunciar a gestação. Ruim porque deixa de entrar dinheiro (e já estou há 3 meses sem poder botar a mão na massa); mas bom, porque se escancararam algumas empresas com mentalidades e atuações machistas a ponto de considerarem que mulheres grávidas não estão aptas a serem fornecedoras ou parceiras, pelas mesmas razões que já conhecemos quando demitem gestantes ou logo após o retorno ao trabalho.


Partes positivas


1) Consegui, mesmo em cima da cama, juntar meia dúzia de ferramentas e lançar um app que beneficia centenas de mulheres na comunicação em busca de oportunidades melhores e auxilia recrutadores a encontrarem talentos femininos


2) Minha mente fervilha tendo ideias de produtos o tempo inteiro. Acho isso excelente porque pretendo colocar todos no mundo, parindo negócios também em breve.


3) Entendi a razão da gestação ser contada em semanas e não em meses. Isso nunca fez sentido. Durante as primeiras semanas foi um processo lindo ver meu corpo mudando em ciclos exatamente de 7 dias. Percebi que ainda habita o selvagem aqui e não sou um cérebro apenas operando um monte de massa. A conexão com o que é natural se tornou mais forte.


4) Parei de me doar o tempo inteiro para todas as pessoas e tive que impor limites bem específicos. Percebi que eu mesma me colocava em situações de abuso e disponibilidade ilimitada o tempo todo para as pessoas e deixava de olhar para mim. Isso mudou, definitivamente.


No geral, as pessoas só falam de forma romantizada sobre a maternidade. Eu confesso que estou achando a gestação um processo tenebroso e se pudesse escolher, muito facilmente inventaria um aplicativo que pularia essa parte da gestação e entregaria os bebês prontinhos. A cegonha foi a melhor invenção que já fizeram, poderia ser real! (brincadeira). Da parte romantizada que sou obrigada a concordar é que ouvir pela primeira vez outro coração batendo dentro de você não tem preço no mundo que pague.


Nem tudo são flores. Meus sentimentos já oscilaram e continuam oscilando muito. Eu me percebi mais humana, mais vulnerável, mas também, com uma capacidade ainda maior para criar novos cenários. Está sendo o mais difícil de todos os aprendizados da minha vida entender quem sou eu novamente, quem serei como mãe e lidar com uma nova percepção externa imposta e que não tenho o menor controle, pelo peso histórico que carrega.


Meu enorme respeito a todas as mulheres que são mães nesse tempo em que vivemos. É o trabalho mais difícil do mundo. Posso abrir 10 empresas nessa vida ou administrar centenas de pessoas e ainda assim continuarei dizendo que ser mãe é mais difícil.


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