• Empatia Criativa

Ser livre

Texto por Roberta Perdigão: https://www.linkedin.com/in/roberta-perdigao/

Sempre me senti uma mulher livre. Desde pequena ouvia minha mãe falar que o sonho dela era que suas filhas fizessem o que ela não conseguiu ou não pode fazer. Quando criança, ela ganhou uma bolsa de estudos em uma escola renomada em nossa cidade, mas meu avô não a deixou ingressar, pois ela deveria cuidar dos irmãos, “isso é coisa que uma mulher faz”.

Foi com essa vontade dela de querer sempre o nosso bem que cresci planejando minha vida. Iria estudar muito, fazer faculdade e trabalhar muito mais para que eu pudesse realizar meus sonhos. Sempre quis e gostei de viajar, conhecer novos lugares e, apesar da timidez, gosto de conhecer pessoas. Fui moldando meus pensamentos pra ser uma mulher livre, independente e determinada a conquistar o que sempre quis.


Reviravolta

A vontade de realizar meu sonho de ser independente e livre deu certo. Estudei, concluí a faculdade, consegui um emprego na área antes mesmo de concluir a faculdade e vim embora pra São Paulo. Cresci no interior de Minas Gerais, durante a faculdade cresci em Belo Horizonte. Vir embora pra SP foi o auge da minha vida, um sonho conquistado. Eu estava radiante.


Com 5 meses morando na capital paulista, recém-empregada e com 3 meses de namoro, descobri que estava grávida. Foi um choque. Aquilo acabaria com meus planos. Sempre quis ser a tia dos gatos, sabe? No exato momento em que descobri, parei de pensar em mim. Não conseguia mais tomar decisões ou saber o que seria melhor no momento. Aquela mulher cheia de sonhos adormeceu. Durante a gravidez fiz tudo no automático, deixava que meu ex-marido decidisse tudo por mim. “É melhor você sair do emprego e se mudar pra cá [outra cidade].”, “Dedica esse primeiro ano ao nosso filho, eu me responsabilizo pelas contas.”. “O meu emprego paga melhor que o seu, você consegue outra coisa depois.”.

E aí começou a minha luta por “procurar outra coisa depois”.


Antes do meu filho completar 4 meses de nascido, comecei minha busca por uma oportunidade. As respostas sempre eram: “Mas ele ainda é muito novinho, você vai deixá-lo com quem?”, “Ele já vai pra escolinha?”, “Tem alguém pra te ajudar?”.


Desisti por um tempo de procurar emprego. Até que veio o divórcio. Eu não tinha emprego, não tinha minha família por perto, não tinha reserva de emergência, nada. Só meu filho, nossas roupas e eu. Voltei pra Minas Gerais.


Desempregada, com um filho pequeno e, agora, com uma crise depressiva. Vi meus sonhos todos indo por água abaixo. Mas no fundo sabia que precisava fazer alguma coisa.

Em Minas Gerais, e com expectativa nula de voltar tão cedo pra São Paulo, fui atrás de oportunidades em Belo Horizonte pra tentar recomeçar com meu filho. Tive ajuda financeira da minha família pra ir nas entrevistas e a cada uma delas voltava pior do que eu estava. No período de 3 meses, fiz cerca de 8 entrevistas. Ia e voltava sempre no mesmo dia porque meu filho esperava por mim. Fora o gasto financeiro, tinha o gasto psicológico de ter que ouvir tanta discriminação por ser mãe.


Todas as entrevistas eram iguais. Começava um breve resumo sobre mim e entrava na parte profissional. Tenho muita experiência na área que eu trabalho, acreditava que conseguiria logo uma oportunidade. No começo era maravilhoso até que vinham as perguntas:

- Você tem filhos?

- Sim! Um menino de X aninhos.

- Ele está com quem agora? (Nesse momento, a caneta de anotações do recrutador era deixada de lado).

- Com minha mãe. Ela me ajuda muito.

- Mas ele fica sem você? Ele já vai pra escolinha? Quanto você paga de mensalidade? Cadê o pai? O pai é presente na vida dele? Por que vocês se divorciaram? Ele trabalha e mora onde? Ele te ajuda também? O que você faria caso seu filho passasse mal? E se acontecer alguma coisa com ele, tem quem possa levá-lo ao hospital?


E acabava por aí.


A que mais me marcou foi uma dinâmica em grupo na qual participei onde haviam outros candidatos, incluindo homens.


A recrutadora fazia as mesmas perguntas para todos. Quando chegou minha vez e respondi que tinha filho, vieram todas as perguntas citadas acima. Respondi, como já havia respondido tantas outras vezes. Quando passou para o próximo candidato, um homem, o mesmo respondeu que tinha filho. E não houve NENHUMA pergunta adicional. Eu tive vontade de me levantar e ir embora, mas optei por finalizar a entrevista, pois ainda havia uma pontinha de esperança. Eu precisava de um emprego. Precisa voltar a minha vida, alimentar meu filho.

Fui embora e não tive nenhum retorno. De nenhuma das entrevistas que fiz em Belo Horizonte. Me sentia uma inútil a cada entrevista que fazia. Percebi a realidade de ser mãe solo.


Mesmo sem condições financeiras, decidi que não passaria por mais aquela situação. Procurei ajuda em grupos, inclusive no Empatia Criativa onde recebi muito apoio de todas. Me ajudaram a melhorar meu perfil no LinkedIn, deram dicas de como proceder nas entrevistas, me deram apoio emocional. Eu precisava de coragem, entender que precisava enfrentar tudo isso.


Decidi, com muita dor, deixar meu filho com os avós paternos para que eu pudesse procurar emprego, agora em São Paulo. Peguei todas as minhas economias, que não eram muitas, e tive apoio financeiro do meu pai durante 3 meses até que fosse recolocada.

Voltei para São Paulo e me despedi do meu filho por 3 meses. Chorava todos os dias de saudade e medo. Prometi a ele que conseguiria algo logo pra trazê-lo de volta pra mim.

E aí começou a minha jornada de entrevistas. Tive uma péssima experiência em BH e estava com aquilo na cabeça. Procurei ajuda nos grupos de mães nas redes sociais pra entender como funcionava o processo de entrevistas de mulheres que são mães. Infelizmente ainda tem muita diferença.


Foram várias entrevistas, várias que finalizaram no momento em que mencionava que era mãe. Algumas que foram totalmente coerentes durante a entrevista, mas não passava dali também.


Consegui ser recolocada no mercado de trabalho depois de um mês e meio. Cumpri a promessa que fiz ao meu filho e hoje moramos nós dois em nosso cantinho.


O que quero dizer com esse textão todo é que sim, mães solo enfrentam dificuldades e são excluídas a todo momento. Não é mimimi! Seja em um relacionamento, no trabalho, no círculo de amizades. Sempre vão olhar para uma mãe e colocar dificuldades em qualquer ação.

A verdade é que quando nos tornamos mãe, aprendemos a fazer tanta coisa... E o principal: não deixamos de ser mulheres, de ter vontades, de querer ser livres, independentes. Temos algumas restrições, sim, MUITAS! Mas nada que nos impeça de ir atrás do que queremos. Não estamos atrás de pena, de querer estar sempre em casa cuidando da cria e não estamos buscando um pai para nossos filhos. Queremos nos divertir, conversar com os amigos, ter uma noite de sexo sem compromisso, trabalhar e ter nossos direitos representados.


Queremos ser livres! Nós podemos tanto quanto outras pessoas também podem. É isso!

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