• Empatia Criativa

Religião x Trabalho

Escrito por Marilia Gilp: https://www.linkedin.com/in/mariliagilp/



Quando entrei para o mundo da propaganda, eu ouvia histórias engraçadíssimas de donos de agências que faziam coisas no mínimo “incomuns” para manter a “boa energia” do lugar.


Tinha um CEO famoso que, uma vez ao mês, sempre de sexta-feira, dispensava todos os funcionários mais cedo porque diziam que rolava um benzimento no prédio todo.


Tinha outro que, segundo dizem, durante suas sessões com seu guia esotérico, soltava uma galinha na agência e a mesa que ela subisse significaria que aquela pessoa não tinha boas energias e seria, no dia seguinte, demitido.


Eu já trabalhei em um local onde a dona, espiritualizada, adepta de meditação, vegetariana, com várias pedras para equilibrar os chakras na mesa e que distribuía fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, exigia que os funcionários usassem branco nas sextas-feiras - e ainda fazia questão de tirar uma foto de toda a agência pra mostrar a “good vibes” em mídias sociais. Por que da camiseta branca e por que sextas-feiras ela nunca falou, mas aí se algum funcionário não aderisse...


Outra agência que trabalhei, depois da perda de 2 grandes clientes, o dono chamou um padre para benzer o ambiente no horário de almoço. Esse, pelo menos, se deu ao trabalho de avisar os funcionários e se alguém quisesse participar, o padre poderia benzer a pessoa também. Se não quisesse, bom, era horário de almoço, né?


Quando eu ouvia ou contava essas histórias, eu achava engraçado, mas confesso que nunca pensei muito a fundo sobre isso, não até entrar para uma agência onde a minha fé se tornou um impeditivo para interagir com outros funcionários.


Eu sou wiccana praticante há mais de 15 anos, mas eu nunca fui de falar da minha religião para ninguém. Poucas pessoas sabem o que é a Wicca, mas se você fala que é o que muitos considerariam “bruxa”, com certeza você vai ouvir uma série de perguntas no mínimo desconfortáveis: Você tem um caldeirão? Você abraça árvores? Você sabe fazer boneca de voodoo? Você tira tarô pra mim? Bla bla bla... Como cresci em um lar cristão, muito do que a minha família fazia nunca me incomodou porque “sempre foi assim”, só comecei a perceber essas coisas ao começar a trabalhar.


Quando comecei a seguir a Wicca pra valer, notei como fés no geral - inclusive a minha - possuem uma questão extremamente pessoal e percebi quão aleatório é deixar uma galinha decidir meu futuro de um funcionário ou ter que forçar empregados a comprar camisetas brancas só para a dona da agência “manter a energia alta”...


Porém, como você reclama se você nem sabe direito como tal assunto deve ser tratado? Então uma válvula de escape que eu recorria era fazer piada. Era ridículo ter que usar branco junto com mais outras 20 pessoas no mesmo dia? Sim. Aí vinha a brincadeira de que éramos a turma da “hidroginástica”, o “grupo do jogo do bicho”, que estávamos fazendo uma pré comemoração de réveillon. Sempre tinha algum motivo aleatório novo e isso acabou se espalhando para outras falas. A verdade era que eu me incomodava por ter que compactuar com uma fé que não era minha. Quando alguém falava um “Pelo amor dos céus, me entrega esse job” eu respondia com um “Deixa eu consultar o Papai do Chão pra ver se ele ajuda”. Se me mandavam um “Menina, você terminou isso a tempo! Você é um anjo!” eu sorria e dizia que “se tiver que escolher time, eu escolho o outro, porque harpa e nuvem não combina comigo”. Às vezes rolava um ou outro momento de estranheza, mas a pessoa sempre acabava rindo e vida que segue.


Para mim, essas piadas eram só isso: piadas, ainda mais porque quem conhece a Wicca sabe que ela não tem nada a ver com qualquer energia considerada “do mal”. Eu só não gostava que misturassem uma coisa que eu via como pessoal - a fé - com algo que pagava as minhas contas. Mas talvez eu tenha sido a ingênua da história porque isso já tinha virado algo tão normal para mim, que eu não pensava duas vezes antes de falar, até o momento que comecei a perceber que algumas pessoas pararam de me chamar no horário de almoço. Outra, se eu estava na mesa com a galera, acabava indo sentar o mais longe possível de mim. Um terceiro, ainda, sempre tinha um imprevisto quando eu aparecia pra dar uma volta na rua...


Eu nunca citei nome de nada. Nunca tentei “catequizar” ninguém ao meu redor e assunto de religião de fato, eu só falava se alguém me perguntava diretamente alguma coisa - bem diferente do comportamento desses meus outros colegas que, descobri depois, estavam propositadamente se afastando de mim e fazendo outras pessoas se afastarem também. Quando essa ficha caiu, eu percebi finalmente que não é a sua religião que diz se você é uma boa pessoa ou não. São suas atitudes. Essas pessoas que se diziam meus amigos mas que falavam mal de mim pelas coisas, claramente não estavam fazendo o trabalho sagrado que tanto se vangloriavam.


É fácil você acolher aqueles com quem concorda, difícil é entender que nem todas as pessoas pensam igual. Por mais que muitos defendam liberdade de culto, só as pessoas que efetivamente passam por isso acreditam que é algo pelo que devemos lutar. É muito fácil concordar com a fé alheia desde que ela seja a mesma que a sua. No meu caso, esses colegas nunca me deram abertura para eu esclarecer que era só brincadeira e, conforme o tempo passou e novas pessoa entraram, eu acabei me tornando a excluída que usava o horário de almoço para ler ao invés de interagir com os demais. Ninguém nunca se deu ao trabalho de explicar que a minha exclusão era porque eu seguia a “fé errada”.


Foi um processo doloroso perceber tudo isso e, por essas e outras, eu continuo dentro do meu “armário das vassouras”, fazendo questão de deixar bem claro que trabalho e fé, por mais que um possa ajudar na condução do outro, não devem ser misturados.

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