• Empatia Criativa

Quem é feito de caos em meio ao caos floresce

Escrito por Adriana Tamashiro - https://www.linkedin.com/in/adrianatamashiro/




Acredito que uma das coisas mais difíceis que existem, por mais que trabalhemos criando histórias para pessoas e organizações, é contar a própria história. Como diz o ditado: “em casa de ferreiro, o espeto é de pau”, até porque sempre estamos correndo tanto contra o tempo para entregar projetos, atender clientes e pensar novas estratégias para os negócios, que simplesmente esquecemos de organizar para o mundo entender, a nossa própria história.


A minha história profissional tem tantas migrações de carreira que quem vê de fora possivelmente não entende absolutamente nada, mas, para quem eu me tornei e pretendo ser daqui em diante, faz todo o sentido.



O início


Eu comecei em Artes Plásticas, porque algo me dizia lááá no fundo, que eu precisava “me expressar”. Me matriculei em licenciatura, porque a vida toda achei que seria professora e, quase no final da faculdade percebi duas coisas: 1) precisava de grana, de uma maneira mais rápida, pra me manter, 2) eu via alguns “podres” desse sistema nos 6 estágios que fiz e vi que não teria saúde mental pra seguir adiante nessa carreira, por mais que educar, pra mim, continue sendo a atuação mais nobre existente. (Minha eterna admiração para todos os professores). Acabei mudando para bacharelado em gravura (porque na época o departamento de digital ainda era um embrião) e talvez tenha aprendido a primeira grande lição que carrego para a vida toda, mas vou precisar explicar a origem filosófica, nas linhas a seguir.


Em gravura, construímos matrizes, que podem ser feitas em pedra, metal, madeira ou tela (silk). Há outros materiais também que podem ser utilizados, mas isso não vem ao caso agora. As matrizes geram cópias. Eu tinha uma compulsão, enquanto aluna, de gerar cópias das cópias até elas serem descaracterizadas da versão original. Isso é criar um simulacro, um fantasma. Se aprofundarmos o conceito filosófico que Baudrillard nos deixou sobre os simulacros, na sociedade contemporânea, eu percebi que talvez poderia ir mais a fundo nesse conceito na minha própria vida.


Dentro da minha necessidade de expressão e encarando que o mundo do marketing e da publicidade são a efetivação do simulacro (que prefere a imagem ao invés da coisa real) faria muito sentido eu tentar um emprego, na cara de pau em qualquer outro lugar que eu usasse minimamente minhas habilidades de conceituação e composição, gerando cópias de mim mesma. Eu queria me descaracterizar de tal forma, sabendo que no caos, eu me replicaria tanto que acabaria me tornando outra coisa. No fim, é o que continuo fazendo, até que o simulacro seja tão diferente da matriz que acabe virando outro original.



Primeiro ponto de virada


Fui pra marketing. Trabalhei em uma house. Cansei da house porque atendia sempre os mesmos problemas, quis ir pra agência. Fui pra agência. Quase morri de tantos burnouts. Dentro do universo de agências, me especializei como designer de apresentação, quando tudo ainda era mato nesse mercado. Saí e fui para outra agência que era braço de uma consultoria multinacional e aí minha cabeça explodiu com um universo completamente novo. Eu fiquei encantadíssima e mais uma vez obsessiva, com 3 itens: 1) visão estratégica de negócios, 2) sistemas consistentes de gestão de pessoas, 3) gerenciamento de projetos como um relógio (ainda em métodos tradicionais, não ágeis). Estava eu lá atuando na liderança da minha equipe especialista, dentro da criação, mas “com um olho no peixe e o outro no gato”. Aprendi tudo o que podia nessa organização e saí novamente.... agora para fazer a maior loucura (até então, da minha vida).



Evolução


Abri meu próprio negócio, em meio à crise de 2008 (whaaat?). É isso. Abri minha própria agência. Com somente o último salário no bolso, um monte de textos vomitados aspiracionais do que eu queria construir focando em pessoas e adotando qualquer modelo-teste (que não fosse como o das agências tradicionais), um plano de negócios que realmente já estava sendo feito durante os 6 meses anteriores, com muitas matrizes lindas (porque óbvio, uma vez apaixonada por matrizes, elas sempre te perseguirão) e muita, mas muita loucura na cabeça (paixão e crença de que eu seria capaz também).


Três meses depois já estava eu sem dinheiro, chorando todos os dias de desespero e sem saber o que fazer. Sem clientes, óbvio. Afinal, foquei em montar o plano todo de negócios e fundamentar as bases do que eu queria, mas não pensei que tinha que ter clientes... ai que absurdo! Pra que clientes? (Erros de uma administradora de primeira viagem).


Quando resolvi parar de chorar, aceitar a queda brusca da nuvem cor de rosa e me mover, fui aprender prospecção, negociação, como fazer contratos, contabilidade, leis trabalhistas, melhores práticas de rh (devorando livros e livros, porque obviamente não tinha grana naquele momento para pagar uma outra pós se tinha acabado de sair de uma formação em criação publicitária, enquanto estava nas agências). Fui aprender, fazendo e errando. Talvez da maneira mais dolorosa, embora muito rápida, porque dependia disso pra pagar os boletos todos os meses e sobreviver.


Achei que o serviço estava sem diferencial. Passando possivelmente, pela fase que todo empreendedor em algum momento deve se questionar: “Se eu não tiver um diferencial, serei engolido? Minha empresa irá para frente? Como sobreviverei?”. Parei tudo de novo e fiquei mais três meses em uma formação intensiva de cinema, aprendendo muito sobre roteiro e sobre produção. (Segunda explosão no cérebro). E escolhi cinema, porque para o que eu estava entregando como serviço, precisava entender muito mais sobre contar histórias, ritmos, mas, principalmente, entender como outra indústria criativa organizava a forma de criar. Descobri naquele momento, que todas as outras áreas de atuação do ser humano poderiam sempre me oferecer algo novo e uma forma de adaptar ou aplicar o que poderia aprender.


Foram 5 anos de agência em estrutura física, com trabalho presencial. Muitos sócios e colaboradores. Mais uma vez, algo me parecia “errado”... era 2013. Não precisávamos mais de estrutura física.


Esse foi o período mais difícil da minha trajetória profissional. Acho que todo fim dói né? Logo na sequência, voltei a ser “eugência”, em modelo 100% remoto e comecei tudo de novo. Comecei a estudar outras coisas, novos modelos de gestão, novas metodologias de projetos e equipes, formas de facilitar processos, entre outras coisas.


Mais caos. Mais uma vez, os clientes (agora eu já tinha clientes, isso não era mais tão preocupante quanto no início) não entendiam que catso eu estava fazendo. (E não entenderam até ano passado quando todo mundo precisou trabalhar remotamente do dia para a noite).


Eu fiquei na minha, continuei aprimorando os processos (internos e externos), adaptando mais modelos, trabalhando com equipes sempre remotas, por projetos e levando minha pacata vidinha (nesse ponto, mais tranquila).



Segundo ponto de virada


Até me entediar de novo e resolver que precisava de mais atividade para a minha cabeça. Começaram os questionamentos: “Por que estou aqui vivendo só para mim, se estou vendo um monte de coisas erradas no mundo e deveria estar sendo mais responsável?” Pensei muito em abrir uma ong ou mudar completamente minha atuação para qualquer coisa longe de comunicação, mas, por conta das minhas participações bem ativas em redes sociais, o Empatia Criativa acabou surgindo de um grupo de mulheres que também resolveu se reunir para fazer uma nova loucura e eu abracei como se fosse a última coisa que faria na vida, por acreditar demais no poder de transformação gerado por cocriação.


Mas, manter uma estrutura dessas é lidar com mais instabilidades e complexidades diárias do que tudo o que eu já tenha vivido anteriormente. Sempre em aprendizado coletivo contínuo e em eterno processo, mudando o tempo inteiro, todos os dias, está aí, em pé, crescendo e florescendo no meio da confusão do mundo, simplesmente porque o caos sempre foi o solo mais fértil para que essa semente fosse plantada, tentando impulsionar centenas de mulheres todos os dias no mercado de comunicação.


Pessoalmente, o Empatia me levou a aprender mais um monte de coisas: CNV, design thinking, Teoria U, liderança feminina. Estou terminando outra pós (finalmente) em gestão de pessoas e iniciei minha formação longa em psicanálise. E por que tanta coisa? Preciso de Teoria U e design thinking para pensar sistemicamente e operar transformações profundas em ambientes complexos, todos os dias. Preciso de muita CNV para praticar escuta e saber facilitar grupos e outras lideranças femininas, o tempo inteiro no gerenciamento de uma comunidade, em rede, com mais de 4 mil mulheres para que cada uma das participantes possa evoluir e por consequência, impulsionar outras mulheres.


Sempre precisei e fui apaixonada por gestão de pessoas, mas só agora consegui embarcar em uma formação. Uso em tudo que faço. E a psicanálise, porque ao trabalhar com comunidades femininas a primeira coisa que se observa é que antes de tratar os aspectos de carreira das mulheres, é necessário acolher alguns traumas e mais uma vez, fazer nascer flores em meio ao caos.


Enfim, essa trajetória maluca, pode não fazer sentido algum para a maioria das pessoas ou das organizações. Eu tenho uma matriz (lá na minha infância) e criei tantas cópias das cópias de mim mesma que passei do simulacro, dando a volta. Tantas modificações acabaram gerando outro original. Outra matriz que também pretende se replicar... e assim pretendo continuar seguindo

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