• Empatia Criativa

Quando eles nascem e Elas não!

Escrito por Sabrina Kelly: www.linkedin.com/in/sabrinakellys

Blog: www.bonsventosmelevam.com



Um papo realista e nada tradicional sobre depressão pós-parto.

É impossível passar o mês de setembro sem me lembrar da experiência mais marcante e dolorosa da minha vida: Uma depressão pós-parto!

Setembro é mundialmente o mês em que as pessoas se lembram da gravidade e da necessidade de cuidar da saúde mental, mas deixa eu te contar uma coisa: é de janeiro a janeiro que o bicho pega.

E quando ninguém se lembra é que as pessoas com depressão mais precisam de cuidados e acompanhamento.

Em 2018 eu conheci minha inquilina, a Letícia. Foi mágico, foi lindo, foi incrível, doloroso e assustador. Lindo seria se o parto e a maternidade fossem tão bonitos e pacíficos como são nas novelas e nos filmes. Sonho meu!

Mas a verdade é que a maternidade é uma sucção eterna de energia, paciência e dedicação.

Nós mulheres nascemos quebrando tabus, rompendo barreiras e desafiando limites.

Já nascemos com a “responsabilidade” de usar lacinho rosa na saída do hospital, sermos meigas, ajudarmos em casa e nos comportarmos como mocinhas. Enquanto os homens nascem com o desafio de serem aventureiros, brincalhões e peraltas.

E verdade seja dita, nem nos apercebemos da carga social e emocional que nos encutem desde o nacimento até o fim da vida.

Quando a Letícia nasceu, senti desaguar sobre mim toda a carga da responsabilidade de continuar sendo a profissional de publicidade e marketing apaixonada que sempre fui, a escritora compulsiva, a leitora viciada, a mulher forte e lutadora que atravessou o oceano sozinha aos 19 anos para lutar pelos sonhos e a ser uma mãe… perfeita!

Erro fatal, ou melhor, soco final no meu emocional, que aliás, já vinha lutando com outras batalhas internas, alheias à gravidez.

Nem sempre quando nascem os filhos, nascem também as mães! Creio eu, que a gestação de uma mãe leva pelo menos o primeiro ano do bebê - e o fim do puerpério.

Quando estava no meu 5º mês de gestação (depois de ser despedida grávida) a médica que me acompanhava viu-me desaguar em lágrimas dentro do consultório e perguntou-me se eu queria ser acompanhada pela psicóloga da maternidade.

Eis aqui a minha primeira experiência e dica: Médicos sensíveis e cuidadosos leem entre linhas e conhecem sinais nos seus pacientes.

A médica viu além de um apanhado de hormônio típicos da gravidez. Ela enxergou sinais claros de uma possível depressão pós-parto. E assim foi.

Um parto muito doloroso e demorado, conto sobre ele no meu blog inclusive, longe da minha família, cheia de medo da anestesia na coluna - foram 4 doses que acabaram com meu cabelo e, um susto gigante quando vi minha filha com a cabeça amassada. Já que a bichinha não queria sair e precisamos usar uma ventosa para puxá-la.

Pensa em uma coisa assustadora? Se chama parto. Não quero te de desanimar, mas não vou mentir é o milagre da vida literalmente. Porque, sinceramente, eu achava que não ia sair dali viva.

Eu passei as primeiras horas do pós-parto a olhar para minha filha ao lado, assustada e pensando se era possível enfiar para dentro de novo. Ou melhor, eu não conseguia entender como eu poderia dar conta daquele ser humano minúsculo que precisava de mim para absolutamente tudo o tempo inteiro.

Algumas horas antes eu era apenas eu. Mas a partir daquele momento eu era eu e meu coração fora de mim, embrulhado em um paninho fofo.

Medo, frustração, dor, hormônios em excesso e muitas expectativas. Até hoje me assusto quando me lembro que os primeiros cocôs eram pretos.

Nesse primeiro momento acontece com muitas mulheres o famoso Blues: Uma tristeza e uma instabilidade emocional acompanhada de irritabilidade, cansaço extremo e outros sintomas emocionais e comportamentais que costumam perdurar não muito mais do que o primeiro mês. Afinal os meses anteriores ao parto são um acúmulo medos, emoções, roupinhas e expectativas.Não tem tratamento aconselhável, a não ser muito carinho e compreensão de quem está por perto.

Mas quando os sintomas se tornam muito intensos e perduram por períodos mais longos, como 2 ou 3 meses, Say: Hello Depressão pós-parto!

E é aqui que um divisor de águas é necessário, começando pela intervenção familiar e profissional.

Quando percebi que os sintomas se misturavam com outros sinais típicos de uma depressão comum, sinalizei para psicóloga todos os meus sentimentos e aceitei o tratamento medicamentoso.

Desse ponto até hoje, é um livro. Uma luta interna da qual tenho saído vitoriosa.

O primeiro passo foi aceitar a condição em que eu estava e entender que eu não tinha culpa. Você não tem culpa, seja qual for a sua depressão.

Mas também entendi que o poder de mudar o rumo daquela história estava nas minhas mãos.

Aceitar a intervenção de uma pessoa era um desafio para mim e ainda é. Detesto expor minhas fragilidades mas percebi que o tratamento com um profissional de psiquiatria e psicologia são como o cuidado que se tem ao cuidar da raiz de uma árvore doente.

É preciso cavar, tirar terra, cortar ramos e pontos podres e mudar alguns hábitos. No meu caso eu era como bambu rígido, certa de que poderia ultrapassar qualquer vento e tempestade, mas naquele momento eu era só a Sabrina. Uma mulher de muita garra mas que precisava baixar a guarda e pedir ajuda.

Foram quase 2 anos de tratamento. Trocas de remédios para não afetar a amamentação, críticas, faltas de compreensão, momentos de fraqueza e tristeza, vontade de desistir e muitos momentos de questionamento sobre quem eu era e para onde iria.

Eu me via mãe, sozinha em Portugal, com a minha carreira interrompida.

“E agora como vou fazer meu Doutorado?”- Pensava eu a cada fralda de cocô trocada.

Hoje, Letícia tem quase 3 anos. Consegui o trabalho que sonhei, me sinto livre, independente, de volta aos meus sonhos. O meu blog mudou o rumo e está crescendo, sou feliz comigo mesma - apesar dos momentos de fraqueza. Mas o melhor foi descobrir que a maternidade trouxe para dentro de mim uma mulher ainda mais forte e corajosa do que aquela que eu achava que era.

A lição final da minha luta contra a depressão pós-parto? Continuo me tratando e sempre que preciso, recorro a ajuda profissional e medicamentosa.

Adoecer não é um problema. Estar emocionalmente frágil também não.

Olho para trás e tenho a certeza de que a luta valeu quando vejo os frutos, quando percebo minha filha crescendo, minha carreira profissional se desenvolvendo, minha família sentindo orgulho de mim e o amor retomando as rédeas da minha vida.

É só uma tempestade, acredite. Vai passar. Palavras de quem se encharcou e descobriu que era só água e barulho.

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