• Empatia Criativa

Posso te pagar com tapinhas nas costas, querida?

Escrito por Jessica Marques: https://www.linkedin.com/in/jessica-marques-5425a5a2/


Começar como estagiária em determinadas áreas nem sempre é animador. O interesse em crescer e conseguir meu espaço no mercado de trabalho batia de frente com a teoria de que uma agência de publicidade, embora conceituada, mas localizada no interior de São Paulo, não teria condições de contratar e remunerar o meu trabalho. Mesmo assim, abracei a oportunidade de um estágio não remunerado, pois aquela poderia ser a chance para começar a trilhar o meu caminho, e de fato, foi.


Após dois meses de trabalho, fui contratada. Que felicidade!


Meu chefe sempre me ajudou, me dava apoio e muito espaço para que eu me desenvolvesse.


Rapidamente, comecei a me inserir em diversas áreas e passei a cuidar das principais contas da agência (o que me agregou muito profissionalmente, afinal, sempre tive bastante afinidade com a comunicação).


Haviam outras mulheres que também trabalhavam lá, distribuídas nos setores de redação, atendimento e planejamento. Setores que, com o tempo, acabei assumindo e como parte de minhas funções, passei a gerenciá-los e coordená-los. Também assumi as campanhas internas de satisfação e engajamento dos funcionários da agência. Eu era responsável por reunir as informações obtidas dos colaboradores e transformá-las em oportunidades de melhorias. No meio desse processo, percebi que todas as mulheres estavam insatisfeitas e infelizes ao exercerem suas funçōes, principalmente quando o assunto era desigualdade salarial.


Agência pequena, poucos funcionários, setores próximos, e claro, as informações que correm como o vento dentro de qualquer corporação, sabe como é, né? Uma das colaboradoras tinha acesso às informações de salários dos funcionários, e notou que um homem, com o mesmo tempo de contratação que eu, mas com menos qualificações, sempre teve um salário acima do meu. Isso facilitou percebermos que todos os salários das mulheres eram inferiores aos dos homens dali. Logo, cada uma delas resolveu se manifestar, a seu modo, solicitando uma revisão de salário, levando em consideração suas evoluções profissionais individuais.

As respostas da gerência foram todas negativas, sempre baseadas na crise que o país estava passando ou na falta de condições da agência em atender os pedidos de reajuste. Até então, eu apenas acompanhava todo aquele caos.


Foi então que recebemos uma avaliação de desempenho feita pela diretoria, nos pontuando. Meus resultados eram todos positivos, senti que era a hora de pedir a minha revisão de salário. Àquela altura, já sabíamos que todos os homens haviam solicitado aumento e sido atendidos.


Enviei minha avaliação por e-mail, junto com a solicitação de reajuste, confiante que, claro, se meu trabalho era tão satisfatório para eles, meu pedido seria atendido, como o dos homens.

A resposta veio também por e-mail, uma semana depois. Concordando com as minhas competências, mas em contraponto, seguida das mesmas justificativas dadas para todas as outras profisionais mulheres da agência. Era a tal da crise.


Embora naquela época as questões de desigualdade de gênero já fossem discutidas, isso não era feito de uma forma tão incisiva. Ficou na cara o pensamento machista de que a mulher, para eles, deveria apenas aceitar as condições que lhes eram dadas e pronto. Eles não queriam enxergar que uma mulher pode exercer papéis com tanta maestria quanto um homem, porque dispõe das mesmas capacidades intelectuais e técnicas, sendo também merecedora de reconhecimento financeiro.


A situação me incomodou muito e eu tive a certeza de que ali não era o meu lugar. Não conseguiria conviver com tamanha injustiça, falta de respeito e falta de caráter da gerência, ao tratar mulheres como seres incapazes de conquistar seu próprio espaço e ajuste salarial, apenas, e tão somente, por serem mulheres.


Obviamente, todas nós nos programamos e saímos da agência assim que pudemos. Conquistamos melhores oportunidades, mas antes, tivemos que mostrar nosso valor, deixando nosso serviço fazer falta, e fez.


Eu cresci muito ali, mas quando penso em tudo o que aprendi, o que me ensinaram de mais importante é que, definitivamente, ali não era o meu lugar.


____

As crônicas são baseadas em experiências reais de mulheres, profissionais, atuantes no mercado de Comunicação do Brasil. Por isso, criteriosamente preservamos a identidade de cada participante.

65 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo