• Empatia Criativa

Perguntar ofende?

Atualizado: Abr 15

Escrito por Gabriela Camargo: https://www.linkedin.com/in/gabicamargo/


A pergunta aqui é retórica, porque sabemos: tem muita pergunta que ofende sim.


Você nem dormiu direito e acorda ansiosa para mostrar o seu melhor. Mostrar que seu trabalho é foda, que você é competente e que pode transformar qualquer empresa. Você sonhou com aquela entrevista desde que escolheu sua profissão e o dia chegou. Sai de casa com antecedência, checa todos os detalhes. Está tudo certo. Tá, hoje em dia você não sai de casa, você acessa o link, mas o conceito é o mesmo. O cenário está todo preparado para ser profissional, o bairro foi avisado que tem que fazer silêncio nos 45 minutos em que você estará na reunião. E ela começa.


São duas pessoas te entrevistando, eles apresentam a empresa, falam sobre a vaga, os desafios e pede para você falar sobre sua carreira. É sua hora de brilhar. Você mal abriu a boca e lá vem a primeira pergunta: quantos anos você tem mesmo? A resposta é objetiva e você tenta continuar, mas eles perguntam: você é casada? Tem filhos? Quer ter? Sua família mora perto? Quem fica com as crianças para você trabalhar?


Não importa mais se você é um arraso. Sua entrevista acabou ali e você nem consegue mostrar seu potencial, porque eles só querem saber da sua estrutura familiar. Nesse momento, você acabou de descobrir que a empresa não é exatamente inclusiva, que as políticas de RH estão um pouco atrasadas no que diz respeito a entrevistas de emprego e confirmamos que sim, perguntar ofende.


Apesar da situação acima ser a que mais me gera revoltas, confesso que não é a que mais atrapalha meus dias. COMO ASSIM! QUE ABSURDO! Vou explicar. Faz algum tempo que trabalho mais como freelancer e prestadora de serviço, então entrevistas passaram a dar lugar a reuniões e orçamentos em que esse tipo de situação não acontece. Mas outras perguntas ofensivas chegam sempre.


NÃO SOU O GOOGLE

Quando você é mulher, muitas vezes, é criada para agradar as pessoas. Sabe, tem que ser boazinha, compreensiva, acessível. O que os outros vão pensar? E se você tem boas notas, tem que compartilhar o conhecimento. Então, desde o colégio teve aquela coisa de ser a pessoa que explica. E se explicar não adiantar, tem que passar cola, afinal você não pode ser a pessoa sacana que se preocupa só em conseguir fazer a própria prova, tem que ajudar os colegas também (mesmo que na maior parte do tempo eles sejam uns idiotas com você).

Você cresce e a tecnologia muda. ICQ, MSN, Orkut e Google. Você não precisa mais procurar as informações em enormes enciclopédias, pode digitar sua pergunta no Google, rapidão. Ou pode mandar para outra pessoa que você acha que vai saber a resposta na ponta da língua: a nerd da escola, que se sente compelida a responder tudo na mesma hora, porque a educação diz que não se pode deixar as pessoas esperando.


Peraê... temos uma questão séria a explorar aqui. As crianças sempre fizeram esse tipo de coisas com os pais, a temida fase dos por quês, e apesar de ser difícil de lidar, é importante para o desenvolvimento infantil e tudo bem. Mas a gente está falando de gente crescida. Gente crescida, que em vez de digitar sua pergunta no Google, digita no WhatsApp ou no Skype (ou no app da vez) e espera que o coleguinha dê a resposta simplificada para ele.

Por anos eu respondi sem perceber que era uma ofensa, afinal eu fui educada a ser colaborativa, né? Mas um dia, e esse dia sempre chega, eu estava soterrada de trabalho e uma amiga mandou uma mensagem que precisava de uma ajuda urgente. Ela precisava saber a cotação do dólar. Agora me diz você: como é que eu vou saber? Eu nem trabalho com economia, nem tenho aplicações. E nesse dia em particular não podia parar a minha vida para acessar o Google e verificar isso. Em um reflexo, falei: porque você não procura no Google? E a resposta foi:


- Ah, é mais fácil perguntar pra você.


E POR QUE OFENDE?

“Nossa, Gabriela, como você é amarga, ranzinza. Sua amiga só achava que você é conectada, inteligente.”


Definitivamente, não.


Se eu não trabalho com mercado financeiro, não tem motivo pra eu saber a cotação do dólar em tempo real. Eu teria que pesquisar. E se é pra pesquisar, ela mesma poderia fazer. Não foi uma pergunta, foram várias perguntas ao dia, por anos.


Ao ficar mandando perguntas que podem ser facilmente respondidas pelo Google (e exigindo respostas o mais rápido possível, claro) seu interlocutor considera que você não precisa se concentrar no seu trabalho ou que sua hora de trabalho é menos importante que a dele. Como se eu fosse uma espécie de secretária a distância, que pode ser acessada em qualquer necessidade e não tivesse minhas próprias obrigações, uma rotina, entregas.

Também é ofensivo quando perguntam: como faço uma campanha para minha loja no Insta? Caramba, é o meu trabalho. Tem coisa que eu estudei anos, que aprendi depois de muito tempo no mercado. Como vou responder em algumas linhas o que alguém deve fazer, como se fosse uma receita de bolo infalível? Sem estudar a marca, o público e os objetivos da empresa. Parece que uma solução tem que cair como mágica, no colo, sem dar nenhum trabalho e de graça. E tem que dar certo, porque cada falha será jogada na sua cara.


Ninguém precisa deixar de perguntar, é possível sim perguntar sem ofender e a verdade é que eu gosto dessa troca, quando não me sinto no papel de trouxa pela 539ª vez. Se essas amigas conversassem comigo falando algo como: montei aqui uma campanha pra minha loja e estou com dúvida sobre o tom de voz que estou usando, será que você pode dar uma olhada? Beleza. Ou: quero começar a estudar tal assunto, achei x, y e z opções de curso, qual você prefere? Maravilhoso. Ela fez a parte dela e existe um ponto de partida. É uma ajuda, uma troca, e não um “faz tudo aí pra mim”.





DIAS E DIAS

Muito provavelmente eu já fiz algum amigo de Google, peço desculpas pelo vacilo. Com certeza, já fiz uma amiga de dicionário de inglês durante uma viagem – o desabafo dela de que sentia que não podia relaxar e aproveitar o passeio, porque todos ficavam perguntando como se falava x ou y, acendeu em mim a luz amarela. Eu só queria ter certeza se estava falando corretamente e pedia sempre um reforço, não percebia que atrapalhava. Tomei meu semancol, passei a deixar que os gringos me corrigissem se necessário e a ser uma pessoa a menos atrapalhando o descanso dela.


A cobrança por ser a pessoa das respostas coloca a gente em furadas. E foi o que aconteceu com essa amiga, nessa mesma viagem. Entre tantas pessoas perguntando o que significavam as coisas, ela pediu um prato com “Liver Pate”, achando que fosse alguma coisa de pato – falso cognato mandou lembranças. Qual não foi a surpresa quando chegou um prato de coisas recheadas com patê de fígado.


Bem, ela não precisou comer uma comida que não gosta, o marido trocou de prato com ela (ele sim, gosta de fígado), mas na rotina, parando para responder coisas que poderiam ser pesquisadas no Google, muitas vezes já tive que ficar trabalhando até mais tarde. Ou pelo menos fiquei estressada, preocupada porque iria atrasar meu próprio trabalho, para responder uma pergunta.

63 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo