• Empatia Criativa

Pague 1, leve 2

A mão de obra está em liquidação e isso é um péssimo negócio.

Escrito por: Gabriela Camargo (https://medium.com/@gabrielacamargo)

Se você está vivendo a pandemia como uma pessoa de classe média-média, sujeita aos desatinos da economia brasileira, talvez tenha passado pelos percalços de perder emprego e procurar um novo.


Bem, eu não perdi um emprego, eu pedi demissão da agência em que eu trabalhava, porque a situação ficou difícil. Foi muito estranho, porque eu adorava o ambiente da agência. Por um bom tempo eu tinha liberdade criativa, fazia trabalhos legais, me sentia valorizada, tinha tempo para vida pessoal e uma remuneração que era ok. Nada demais, mas era o suficiente.


Só que de uma hora para outra, a filosofia do lugar mudou. Acabou a liberdade criativa, passei a ser cobrada por erros dos próprios diretores e as ordens não tinham mais sentido. Comecei a perceber que meus objetivos eram diferentes dos objetivos da agência e a situação ficou insustentável. Percebi que estava indo contra meus princípios e foi hora de dizer tchau.


Não foi a primeira vez


Com homem talvez seja diferente, mas comigo e com algumas conhecidas eu já percebi o padrão Geni. Quando a agência está com problemas financeiros ou de gerência, estressar uma funcionária mulher e jogar a pedra (ou a culpa de todos os problemas?) nela é uma saída fácil.


Se fosse só comigo, saberia que era uma coisa para mudar em mim, mas quando percebi isso acontecendo até em pessoas que não eram exatamente próximas, descobri que é um modo de operar meio comum, acompanhado de frases feitas:


Mulheres são emotivas. Mulheres têm TPM. Mulheres não sabem se controlar.

Mulheres levam tudo para o pessoal. Mulheres são loucas.


Colocam em dúvida nossas palavras e atitudes. Dizem que podem nos substituir a qualquer momento. Que não podem nos pagar mais porque nós não estamos rendendo tanto quanto antes, mas contratam outra pessoa (quase sempre, um cara) que não entrega metade do que nós entregamos e pagam muito mais pra ela. Dizem que estamos atrapalhando a equipe, mesmo que isso não esteja de fato acontecendo e que o problema real seja relativo a decisões estratégicas alheias a nós. Falam que nós não temos talento.


Dependem de nós e sabem disso, mas não querem que saibamos. Então minam nossa autoconfiança e nos fazem pensar que estão fazendo um favor em nos manter no emprego. Transformam nossas vidas em histórias tristes e nos transformam em pessoas sem alma.


Depois de pedir demissão


Não era a primeira vez que isso acontecia comigo, então me organizei e pedi as contas antes que a situação ficasse inviável (para mim). Quando tentei conversar com meu chefe sobre a mudança no comportamento dele, na falta de briefing e processos, ele falou que percebeu que meu trabalho estava caindo de qualidade mesmo.


Foi confuso na minha cabeça. Apesar dele gongar tudo o que eu apresentava, o meu trabalho era o que estava sendo aprovado, minhas ideias eram as que iam para frente com o cliente. Mas eu estava saindo, fiquei quieta e sorri, aquela luta não era mais minha.


Tem os boletos


Boletos vencendo e nada de trabalho, freela ou fixo. Aí aparece uma oportunidade que… enfim, tira do sufoco. Aceitamos com alegria.


Mas o salário baixo não representa menos trabalho, longe disso. A cobrança para mulher vem sempre em dobro. Afinal, mulheres conseguem falar ao telefone, fazer comida, cuidar dos filhos e ainda responder onde está o livro sobre marketing. Tudo ao mesmo tempo. Esse tipo de mito que falam que está nos enaltecendo, mas só faz justificar abusos.


Independente do que for falado no dia da contratação, o dia a dia do trabalho vai se mostrar diferente. E vamos ficar quietas, na maioria das vezes, pois precisamos do salário. Qual é a chance disso terminar bem?


Estamos em promoção

Você já entendeu, mas vou continuar escrevendo.


Com a pandemia acredito que toda força de trabalho está sendo tratada como artigo em liquidação. Acontece que, como em toda liquidação, alguns produtos ficam mais baratos que outros, afinal sou uma garota materialista em um mundo materialista. É a lei do mercado, né?

Homens heterossexuais brancos e que morem em boas localizações, vão desvalorizar menos que mulheres, população LGBTQIA+, negros, periféricos ou portadores de deficiência. Todos estão sendo desvalorizados, mas alguns são menos desvalorizados que outros. E isso é cruel quando você pensa que os mais desvalorizados já ganhavam bem menos antes.


Mas se promoção constante de produtos já se mostrou uma estratégia improdutiva, imagine promoção de pessoas que trabalham para gerar lucro para empresas. Pouca chance de ser sustentável e dar bons resultados no longo prazo.


Sabe, isso não é uma ameaça, é uma questão de lógica. As pessoas precisam ter alguma segurança para trabalharem bem, ter boas ideias. Vão render melhor se souberem que os filhos, os pais, o cachorro tem comida, agasalho, remédio. Se não viverem sob o medo de serem mandadas embora o tempo todo. Com a tranquilidade, os funcionários conseguem produzir mais em menos tempo, cometer menos erros. Mas quem está o tempo todo preocupado com as contas que não fecham, bem, está o tempo todo preocupado com as contas que não fecham.


Saindo do local de trabalho, a valorização dos funcionários melhora a economia geral. Pois, pessoas de bem com seus trabalhos e salários podem planejar gastos e gastar mais, não ficam guardando tudo o que ganham com medo do amanhã. Mas não, o capitalista espertão tem que levar vantagem. Resultado: ano após ano estamos perdendo para uns poucos serem bilionários e uma classe média iludida achar que também vai chegar lá. Spoiler: não vai.


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