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Overdose de machismo

Texto por Adriana Tamashiro - cofundadora do Empatia Criativa


Às vezes me pergunto por que hoje faço o que faço. E tantas outras vezes chego a conclusão que talvez seja por ter características do que chamo por “sobrevivente” e, quem sabe, de tanto sobreviver, tenha criado uma casca tão rígida e uma força interna que me permitem ser quem sou. Inclusive, permitem que eu escolha não ser violenta como quase sempre tive o desprazer de experienciar.


A partir do momento em que nascemos com uma genitália que nos identifica como do gênero feminino, a vida se torna uma eterna batalha de sobrevivência a todo tipo de agressão, abuso e assédio, simplesmente por termos nascido. Nossa sociedade patriarcal acredita manter o direito sobre nossos corpos, nossas vontades, nosso intelecto e nossas escolhas. E ainda, me considero com alguma sorte, por ter nascido no ocidente. Poderia ser pior.


Aluna exemplar?

No período escolar, as notas mais altas das classes sempre eram dos meninos. Eu já ficava injuriada e desde muito cedo aprendi a “competir” com eles, porque sempre achei que poderia ser tão boa quanto. Isso sempre me gerou um altíssimo nível de cobrança. Uma vez minha mãe foi chamada porque comecei a chorar por ter tirado 9,5. Eu estava na primeira série. A professora queria saber se em casa me obrigavam a estudar feito louca. Não. Eu era do tipo que fazia toda a lição de férias do mês no primeiro dia para me livrar logo da tarefa. Eu não falei para ninguém o motivo, mas era porque o menino que eu gostava, e que era o “mais inteligente” da sala, tinha tirado 10, enquanto eu tinha tirado só 9,5. Eu não admitia não ser igual. Hoje vejo o quanto, desde cedo, eu poderia me permitir a todos os abusos que passei a considerar normais posteriormente, se desde muito cedo essa relação de competição x paixão x força sempre esteve presente de forma às vezes sádica, às vezes masoquista.


Fui crescendo. Durante toda a juventude a dinâmica não foi muito diferente. Na faculdade, eu passava por um dos períodos mais tensos da vida, financeiramente. Eu tinha exatamente 3 reais para gastar por dia, que eram o valor da passagem do ônibus para ir e voltar da faculdade, atravessando da zona leste para a oeste. O curso era integral e extremamente elitista, apesar de eu ter conseguido entrar em faculdade pública. Várias vezes desmaiei no trajeto e tive que ser socorrida nos terminais de ônibus por não ter comido nada o dia todo. Isso acabou sendo amenizado quando comecei a namorar um colega de classe. No fim, se não fosse por ele, talvez eu não tivesse terminado a faculdade, porque ele realmente me ajudava com os gastos e até as coisas mais básicas até o momento em que comecei a trabalhar (o que não demorou tanto). Porém, ao mesmo tempo em que ele me ajudava por um lado, me subjugava de outro. Eu não podia ser “melhor” que ele. E não fui. Me contentei em ser mediana e apenas terminar o que tinha começado. Eu já estava fora do universo de arte (que havia escolhido) e trabalhando em marketing, porque eu sabia que seria um campo em que não precisaria disputar mais nada com ele.


Profissionalismo é para quem pode

Nesse primeiro emprego em marketing, como temporária, porque eu era bolsista de iniciação científica ganhando menos de 200 reais que mal pagavam o transporte e não poderia ter nenhum outro vínculo empregatício para não perder a bolsa, estava eu lá, no auge da minha arrogância juvenil e acabara de entrar um diretor novo que chamou um a um na sala dele para conversar. Eu estava ansiosa, pois ele era uma pessoa que chegava de suspensórios e coturno, em cima de uma motona em um ambiente em que todas as pessoas eram muito mais “padronizadas”. Achava legal que mesmo que ele soubesse que a rádio peão falasse sobre isso pelas costas dele, ele tava pouco se lixando... mas minha experiência com esse diretor não foi boa e possivelmente ele não saiba o efeito que a conversa teve em mim, até hoje.


Ao me chamar na sala, ele começou: “Você está se formando em artes plásticas, né? Meu irmão mais velho se formou em artes plásticas. Tem 40 anos e é um fracassado que ainda mora na casa dos meus pais. Só sobrevive porque ainda conta com a ajuda deles financeiramente”. Sério, ele não me perguntou absolutamente nada. Nem sobre como estava o ambiente, a adaptação, nada e já saiu metralhando isso. Na hora, meu mundo de admiração por aquela figura desabou. Eu só respirei fundo e falei: “Desculpe, mas não me compare ao seu irmão. Se eu não fosse muito consciente da vida que eu gostaria de ter, não estaria aqui, para começo de conversa. É só isso que gostaria de me dizer?”. Ele só acenou com a cabeça e eu saí, fui no banheiro chorar e voltei pra me sentar absolutamente calada pra fazer meu trabalho. Eu tinha pouco mais de 20 anos.


No próximo emprego, eu era daquelas que trabalhava de terninho (por ser o dress code da empresa), mas ia com uma corrente presa no cinto, que por muitas vezes era minha “arma” contra qualquer questão que eu precisasse revidar fisicamente e acabei escutando diversas vezes que meu visual era agressivo para o ambiente. O motivo de eu ter me demitido nessa empresa: assédio sexual. O indivíduo me ofereceu o carro que estava no estacionamento, jogando a chave na minha mesa, para transar com ele e tínhamos claramente uma situação em que o nível hierárquico ou mesmo a posição social (e imagem profissional) do ser em questão, não me permitiam fazer absolutamente nada. Engoli, mais uma vez à seco, levantei e fui me demitir, sem cumprir aviso prévio.


Não melhorou depois. Nas agências, várias vezes passei pela situação de receber menos e ser designada para tarefas e projetos que “eram de mulher”. Mas as situações mais difíceis de lidar, começaram quando eu resolvi iniciar outra fase da minha vida, saindo das agências para abrir meu próprio negócio. Não havia mais para onde correr.


Claro que sempre pode piorar...

E chegamos no ponto da história onde as “tretas” realmente começaram... já dentro de casa, eu ter decidido que não queria mais trabalhar para os outros, gerou a frase: “você é louca!” inúmeras vezes. No geral, nesse momento, eu já estava ligando o foda-se para o que a maioria do mundo pensasse sobre a minha pessoa, no entanto, quando a crítica vem das pessoas que você mais ama e que deveriam te apoiar, dói. Dói muito.


Bom... alguns anos se passaram e eu já havia tido uma sócia mulher. Tudo ok até aqui. Quando desfizemos a sociedade e fui abrir novamente outra conta empresa, qual a minha surpresa? Por mais que eu apresentasse todos os documentos, tivesse o nome impecável, apresentasse documentos, telefone e dados de faturamento dos meus clientes (que não eram marcas pequenas) o banco abriu a conta mas não queria liberar crédito. E eu tinha garantias a oferecer. Ficamos em uma discussão sem fim e sem sentido. Acabei arrumando um sócio homem, mudei os documentos e assim que ele apareceu comigo na agência a porcaria do crédito foi liberado, mesmo que eu fosse a avalista sozinha. Até hoje tenho um nó entalado na minha garganta quanto a isso.


Nem sempre o cliente tem razão

Não menos importante, foram todos os assédios de clientes homens (abri minha agência aos 27 anos, mas eu sempre pareci mais nova). Ou porque achavam que eu não teria competência (por ser muito nova), ou porque eles achavam que conseguiriam de alguma forma mais vantagens por eu ser mulher, fazendo insinuações indelicadas durante as reuniões.


No fim, eu me tornei uma pessoa extremamente seca e direta nas reuniões. Algumas vezes, simplesmente levantei e saí da reunião ao ser assediada, dizendo que não precisaria fazer negócio com uma empresa que tentaria negociar daquela forma (totalmente fora do âmbito profissional). Eu botava o “pau” que nunca tive na mesa, o tempo inteiro... porque foi assim que aprendi a me defender de todas as agressões que eu sofria TODOS OS DIAS. E, violentamente, tinha que botar as pessoas em seus devidos lugares. Nunca foi agradável e eu não queria ser assim.


A coisa foi melhorando quando os cabelos brancos começaram. Mas aí, a gente percebe o quanto temos uma sociedade que, além de tudo, praticamente idolatra a pedofilia. Porque quando você assume e deixa evidente que seu corpo está envelhecendo, o interesse e o assédio diminuem. E, mesmo sem querer, comecei mesmo a ligar cada vez menos para o meu corpo, porque isso ajudava a fechar mais fácil os negócios e as pessoas começaram a focar no que eu falava, não se eu tinha curvas, decotes ou o que fosse. Foram noites e dias chorando sem parar. Centenas de horas em terapia.


Não é amor se for possessivo

Muito possivelmente, o pior momento que tive com relação ao machismo e fui perceber de fato em que tipo de sociedade vivemos, aconteceu quando tive o ápice dos meus relacionamentos abusivos. Eu estava noiva e ganhava bem mais que meu “futuro marido”. Ele já não se sentia muito confortável com isso... afinal, tinha duas faculdades renomadas, por falta de uma. Ele queria que eu largasse o que fazia para cuidar dele e da família que construiríamos. Isso obviamente não ia acontecer, mas a cada dia ele se incomodava mais e mais e as agressões foram aumentando. A ponto de, na primeira grande tentativa (ainda) verbal de dominação, agredir a mim e a uma amiga que estava em casa naquela noite. Ele queria me obrigar a largar a conversa e ir para a cama com ele, porque eu era a “mulher dele”. Eu não fui. Aí, ele fez a maior cena dizendo que ia embora e se saísse pela porta não voltaria mais. Eu disse que a porta da rua era serventia da casa. Ele saiu batendo o pé. Eu não fui atrás e no dia seguinte larguei as alianças (já estávamos com o casamento marcado no cartório) na porta da casa dele.


Ele me ligou e marcamos de conversar em um jantar. Eu falei que não queria mais casar tão rápido e que preferia ir com calma, mesmo que reatássemos. Ele não aceitou. Eu estava voltando para o apartamento e falando pra ele ir pra casa dele, porque a conversa não estava indo para um lugar bom. Quando passei pela portaria, deixaram ele entrar, porque logicamente já tinham visto ele entrar comigo inúmeras vezes.


Ele subiu o elevador sem dar um pio. Ao entrarmos no apartamento, ele só fechou a porta e começou a me espancar, gritando que ia me matar. Eu não conseguia nem ter noção do que estava acontecendo. Quando eu percebi que minha cara toda estava sangrando e eu não conseguia respirar por conta do sangue, só tive a necessidade de ir até a cozinha pegar um pedaço de papel para limpar meu rosto, sem nem entender o que estava acontecendo. Possivelmente ele achou que eu pegaria uma faca ou qualquer outra coisa, e piorou os chutes e socos.


Eu consegui gritar por socorro só nesse momento. E não sei como, porque eu tenho flashes parciais de lembrança do dia, mas consegui correr até a porta de saída e minha vizinha me puxou rápido para dentro e bateu a porta na cara dele. Ela e a portaria já haviam chamado a polícia, que na época, por lei não poderiam intervir ainda, se eu não pedisse por socorro.

A portaria não deixou ele sair. Inventou alguma desculpa sobre qualquer coisa técnica e ele acabou preso em flagrante. Os policiais ao subirem, verem o apartamento destruído, as paredes e chão cheios de sangue, sem contar o meu estado, não tiveram dúvida nenhuma. Foi todo mundo para a delegacia. Tempos depois, descobri não ter sido a primeira a ser agredida por ele. Esse foi o único fator que me fez seguir com o processo até o final, o que foi mega doloroso. Achei que nunca mais conseguiria ser feliz, ou mesmo me sentir de fato inteira como mulher na vida. Junto com o conflito interno, ainda tive que enfrentar um período difícil com relação ao trabalho, uma vez que tinha exposto a história em portais de notícias com minha cara estourada estampada nas matérias, para alertar outras mulheres e isso me rendeu dois anos de prospects de projetos que perguntavam sobre a agressão que vivi, antes de falar sobre trabalho até que fui obrigada a solicitar que todos os veículos retirassem as fotos (que eu havia permitido) das notícias para que eu pudesse retomar minha vida profissional com dignidade. Senti na pele, um machismo enraizado prejudicando o que vinha há anos construindo, pois antes de ser profissional, fui julgada como mulher, socialmente falando, e a mulher sempre leva a culpa. Parece que não basta apanhar do homem, você apanha da sociedade também.


O que nos deixa mais fortes

Após esse episódio, todas as fichas caíram, e eu percebi finalmente, em que mundo estava vivendo. Até então, eu mesma estava alienada a todas essas questões e só me permitindo passar pelas coisas, sem ter controle ou voz sobre elas. Só sofrendo com elas. Depois de renascer, acho que nasceu junto uma força que nunca achei que tivesse e que a partir daquele momento me colocaram em uma posição de lutar de fato todos os dias, do momento que acordo, até a hora de dormir, para que outras mulheres não passem por nada que eu passei. Na verdade, há muito mais histórias que nem caberia expor aqui.

Nasceu uma outra mulher, tarde até... que não consegue mais chorar por conta dessas questões, que se precisar dar porrada, dará, mas que tem escolhido tentar não ser violenta e não replicar toda a violência recebida, porque sabe que isso não ajuda em nada. Que todos os dias tenta lidar com a própria fúria interna para fazer desse mundo um lugar um pouco mais suportável.

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