• Empatia Criativa

Essa coisa de nome das coisas

Escrito por Gabriela Camargo: https://www.linkedin.com/in/gabicamargo/



“Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume.”

William Shakespeare


Confesso que adoro essa frase de Romeu e Julieta e uso em mais situações que seria indicado para alguém que trabalha com criação. Mas tem vezes que ela se encaixa tão bem com o que quero dizer, que se torna impossível abrir mão desse recurso.


Não se engane. Nosso assunto aqui não será literatura inglesa, Shakespeare e nem ao menos naming, que até parece ser um caminho óbvio, pelo título e pela citação. Essa cabeça de cabelos grisalhos é realmente estranha e está preocupada com nomes por conta de definições novas para o mesmo cargo.


Vamos ao começo

Eu me formei em 2006, quando já existia internet e redes sociais e os blogs estavam no auge, mas as agências de publicidade ainda se classificavam entre on ou off-line. As grandes agências, os nomes tradicionais, eram off-line. As mais modernas, que estavam surgindo, eram on-line. Um redator ou redatora, normalmente, fazia ou digital ou impresso, raramente fazia as duas coisas. O nome era redator e você talvez tivesse sua especialidade.


Às vezes, dependendo do lugar em que você era contratado, o cargo na carteira de trabalho era analista de comunicação ou analista de marketing, mas isso é burocracia em função de corporativismo ou sindicato.


Nessa época, eu tive a sorte de trabalhar em um lugar que tinha uma visão mais ampla e que já acreditava em comunicação integrada, multimídia. O que hoje é óbvio, já foi uma tendência e depois uma novidade. A cada novo meio de contato com o público, a gente precisou aprender uma nova forma de se comunicar e isso foi se aprimorando ano a ano, afinal a linguagem é uma coisa viva.


Por ser viva, a linguagem também dá uma bagunçada no nome dos cargos. O que antes eram, vamos dizer, especializações da redação, agora parece que são tidos como cargos autônomos.


O nome de quem escreve

Eu, particularmente, sempre desenvolvi textos para sites, trabalho com o digital desde que era estagiária pensando em lógica, clareza, na navegação e retenção de usuários. A forma de desenvolver esses conteúdos foi evoluindo: houve um tempo em que tudo tinha que ser muito curto, para priorizar o espaço. Texto para uma tela tinha que ser mínimo, conciso e tinha que caber no layout.


Depois os parâmetros mudaram e a prioridade passou a ser a facilidade de compreensão do usuário. A ideia era diminuir a ocorrência de dúvidas, conduzir a navegação e tornar a interface o mais autoexplicativa possível. Nem todo redator sabia fazer isso, mas um redator focado em digital normalmente tinha essa expertise. Foi mais ou menos nessa época que comecei a ouvir falar em UX writing (escrita para experiência do usuário).


As primeiras vezes que ouvi falar em UX (user experience ou experiência do usuário), o foco era muito na organização e navegação dentro do site. Tinha muita pesquisa e design, quase nada sobre texto. Depois, começaram a pipocar os cursos de UX writing e lá fui eu fazer alguns.


Qual foi a surpresa? As informações disruptivas (a palavra estava muito na moda) explicavam basicamente uma especialização da redação, uma aplicação para melhorar a funcionalidade e sim, experiência do usuário.

Não me entenda mal, um redator precisa sim estudar para fazer o UX writing, mas não é um outro universo, está mais para um satélite próximo, que exige um preparo especial para chegar lá, mas está dentro do seu sistema.


Redação X Copywriting

Claro que UX não foi a única novidade no ramo, foram várias inovações nas redes sociais, com um campo enorme de coisas para se atualizar. Aprender como se comunicar no Facebook, no Twitter, no Youtube e depois em cada lançamento de cada rede. Entender que tipo de conteúdo é mais interessante para cada lugar e qual a linguagem que deve ser usada. Bem, são mídias diferentes e a gente precisa se adaptar a cada uma delas, certo?


Mais ou menos. Vamos dizer que eu falo inglês razoavelmente bem e sempre tive um currículo no idioma, porque vai que aparece uma oportunidade. E é aquela coisa, redator é copywriter. Pelo menos era o que eu achava.


Um contato falou que tinha visto no meu portfólio que eu fazia copywriting, na verdade não estranhei, porque o uso de estrangeirismo em agência é enorme. Mas ao longo da conversa fui percebendo que ela estava falando como um tipo de redação específica para redes sociais. Freela que vem, freela que vai, vejo o termo ir se popularizando. Até que sai na Propmark uma matéria separando o que redator e o que é copywriter.[1]


Segundo o texto, o redator seria generalista e o copywriter seria um especialista. Certo. Aí vem que o redator seria uma espécie de guardião da ideia enquanto o copywriter é só texto. O redator saberia escrever para diversas mídias e o copywriter é focado em usar técnicas para conseguir uma reação específica e imediata do público nas mídias digitais. Aqui eu começo a achar que temos problemas e nem vou entrar na questão da tradução.

Explico. Da forma que é explorado no texto, o copywriter é um profissional mais técnico, menos estratégico, que as empresas contratam para conseguir resultados imediatos em mídias digitais. Mas, por trabalhar mais com certas técnicas, um copywriter deixa de ser um redator? Não faz sentido. O redator é tido como um profissional que faz textos mais formais, que seriam incompatíveis com a linguagem necessária para redes sociais e isso também é um argumento muito fora da realidade. Cada cliente, em cada mídia, exige uma linguagem diferente. Algumas mais formais, outras mais informais. O mesmo vale para posts, blogs, podcasts e redes display. Colocar um redator como alguém que escreve só de um jeito, sei não, soou estranho.


Sem contar os exemplos, como o storytelling. Talvez eu esteja fazendo de um jeito errado, mas costumo usar para envolver a campanha inteira, seja digital, endomarketing ou um evento. Afinal, envolver o público em uma história é muito forte, é necessário para quem quer engajar equipes, vender, conquistar seguidores ou convencer a tomar vacinas. Na internet, no postinho ou na televisão. Não é prerrogativa de apenas uma mídia.


Insegurança em tempos de LinkedIn

Não é raro encontrar novas definições de cargos na rede de relacionamentos profissionais. Em nome dos algoritmos e do marketing pessoal, a gente investe em diferenciação, afinal precisa se tornar uma marca relevante. Isso, se você está lá trabalhando seu perfil. Além de redator, UX writer e copywriter, tem conteudista, especialista em conteúdo, storyteller, escrita criativa e por aí vai.


Claro que a cada escolha, uma renúncia. Ao me posicionar como alguém que acha que essa classificação é uma teorização meio sem sentido, posso ser vista como ultrapassada, rabugenta, mesmo que a minha ideia seja só mostrar que tanta variedade de cargos é mera burocracia. Afinal os bons profissionais seguem escrevendo coisas incríveis, independentemente do nome que são chamados.


Conta pra gente: o que você pensa sobre tudo isso?



___ [1] https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6782312698102333440/, acessado dia 16 de abril de 2021

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