• Empatia Criativa

Em terra de insegurança, quem trabalha bem... É um infeliz.

Texto por Jessica Marques: https://www.linkedin.com/in/jessica-marques-5425a5a2


Em terra de insegurança, quem trabalha bem... É um infeliz.

Contratada por uma pequena agência, eu trabalhava com dois sócios-diretores: o Diretor de Criação, um cara introspectivo (o chamaremos de Jack), e o Diretor Executivo, este mais comunicativo e expansivo (será chamado de Ben).


Eu era parte da equipe de criação e, com o tempo, fui me tornando líder, assumindo informalmente essa função, além de me responsabilizar por desenvolver Briefings e também atender os principais clientes. Deixei de ser quem executava e passei a auxiliar no processo da criação. Evoluí de “Júnior” para “Pleno” e os clientes começaram a dar preferência, aprovando os projetos desenvolvidos por mim. Preferência essa, que com o tempo tornou-se um problema. Vou contar pra vocês!


Desde que entrei na agência, os meus dias de férias já estavam combinados (é aquela velha história do pobre que resolve viajar e, pra isso, tem que juntar as economias por um bom tempo e planejar com antecedência). Porém, nas vésperas, eu precisava ajustar os pontos e relembrá-los da minha viagem, para sair tranquila.


Jack era bem ausente (e era a ele, geralmente, que eu precisava me reportar), por isso, procurei a equipe do Ben para alinharmos sobre as férias JÁ PROGRAMADAS. Acertamos tudo e, para formalizar, enviei um e-mail para os dois. Para mim estava tudo certo.


O início dos problemas:

“Magicamente”, Jack começou a implicar comigo. Criticava meu desempenho, reclamava dos trabalhos que eu entregava (me repreendia na frente de toda equipe). E pior, quando tinha a oportunidade de estarmos a sós, ousava a gritar. Cheguei até a acreditar que o meu trabalho estava em decadência.


Observando o cenário todo, a entrega dos meus projetos continuava sendo a preferida pelos clientes. Eu estava fazendo um bom trabalho e era explícito que me destacava. Por esse motivo, infelizmente, percebi que Jack, meu diretor, sentia ciúmes de mim. Mas, mesmo assim, as coisas continuavam caminhando.


Em determinado fim de ano, foi acordado que meus benefícios teriam uma melhoria imediata. Aguardei até fevereiro, e nada. Resolvi procurar Ben (ele era o responsável por esse assunto), e questioná-lo. Afinal, precisava fazer o meu planejamento financeiro.

Logo após nossa conversa, fiquei sabendo através de uma amiga, que uma vaga similar à minha estava sendo anunciada.


- Como assim? Será que vão aumentar a equipe? Será que estão contratando alguém pra me auxiliar?


Imediatamente, me dirigi ao Jack para me inteirar sobre as mudanças.


No primeiro momento, fui informada que era apenas estratégia de SEO (técnicas usadas para melhorar o posicionamento de um site), para atrair pessoas. Mas não demorou muito para ele me chamar de volta à sua sala e “vomitar” na minha cara todas as palavras de repúdio que ele secretava. Afirmou que a vaga disposta era a minha, e que eu merecia sair, pois havia passado por cima da sua autoridade e sido antiética ao pedir férias e aumento para o outro sócio/diretor.


- SEU CHEFE SOU EU! – Era o que eu escutava, aos gritos, batendo enfurecidamente na mesa.


Escutar que fui antiética me marcou muito, e a forma como me tratou então, nem se fala! Era de se esperar que não daria mais para trabalhar com eles.


Insegura por não ter um contrato de trabalho, decidi aguardar o pagamento do meu salário antes de qualquer atitude. Foi bom pra que eu “esfriasse as ideias”.


No dia seguinte do depósito, os chamei pra uma conversa, expliquei os meus porquês e me demiti. Para minha surpresa, Ben mostrou-se por fora do que estava acontecendo. Já Jack, desta vez, calmo e sem gritar, insistiu em dizer que tudo não passava de um mal entendido.

Fui firme e consistente. Dispus-me a ajudar nos projetos em andamento, mas não voltei atrás. Senti certo medo da parte deles de eu ir atrás de algum direito meu, pois mesmo não havendo contrato de trabalho, eles me pagaram até mais do que deveriam.


Foi uma mistura de alívio com uma luta, comigo mesmo, para anular as coisas que eu havia passado ali dentro.


Tudo em pratos limpos:

Dois anos depois, já recuperada, Ben me procurou para tomarmos um café. Aceitei.

Colocamos a história “em pratos limpos”. Houve pedido de desculpas da parte dele por não ter se atentado e por ter deixado tal coisa acontecer. Foi ali também que fiquei sabendo que o mesmo diretor que me colocava pra baixo, me assediava moralmente e tentava me desvalorizar com ar de superioridade, trapaceou a empresa, acabou com sonhos alheios e seguiu.


O problema não era eu! - suspirei.


O problema só seria meu, caso insistisse em permanecer naquele ambiente de dor. E, não o fiz.


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* As crônicas são baseadas em experiências reais de mulheres, profissionais, atuantes no mercado de Comunicação do Brasil. Por isso, criteriosamente preservamos a identidade de cada participante dos grupos administrados pelo Empatia Criativa.

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