• Empatia Criativa

Desvendando a Justiça

Texto por Michele Louvores: https://www.linkedin.com/in/milouvores/

Uma mulher preta foi demitida de uma grife porque não representava a imagem da marca. Em seu lugar foi contratada uma mulher branca. Durante os trâmites demissionais, a negra também sofreu agressões racistas da ex-chefa. Como tudo isso aconteceu na presença de outras pessoas, a mulher agredida se sentiu confiante: foi à delegacia e registrou boletim de ocorrência, mas saiu de lá com a sensação de que a coisa não vai andar. Frustrada, pensou em tornar a história pública e contou para uma amiga que contou a um amigo que me contou para que o enredo chegasse às redes sociais e jornais o quanto antes.


A primeira coisa que fiz foi perguntar se ela contava com a orientação de um advogado. E alguém pode questionar: mas uma denunciante do crime de injúria racial com testemunhas precisa de advogado? Precisa. E talvez até mais do que o próprio acusado.


Recentemente, Frederick Wassef foi denunciado por uma funcionária da Pizza Hut que alegou ter sofrido injúria racial. Wassef é aquele "ex-advogado" dos Bolsonaros e proprietário do imóvel onde estava escondido Fabrício Queiroz. Habilidoso e experiente no mundo das leis, ele já se pronunciou pela própria inocência e prestou queixa contra a moça por denunciação caluniosa. É exatamente aí que mora o perigo. Perigo não para o agressor, mas para a vítima, que pode sofrer um efeito rebote por não contar com a orientação jurídica adequada.


A injúria racial é um crime de prova difícil e processo dificultado. Todo o sistema é estruturado e opera pelas mãos dos algozes e seus pares. Diante dessa realidade, é fundamental deixar de lado a ideia de que estamos dentro de uma série de tribunal americana, em que Viola Davis ou Kerry Washington surgirão como heroínas para nos salvar e comer um cachorro quente na escada do fórum ao final do episódio.


Aqui é Brasil e o ano é 2020. A democracia ainda está em vertigem e a Justiça foi esculpida em mármore branco. Empunha uma espada descansada, mas não carrega qualquer tipo de escudo. Deliberadamente vendada, ignora a cor da pele de suas vítimas e não raro confunde igualdade com equidade. Essa Justiça não nos dá o direito de ser ingênuos com nossas vítimas, mas nos exige o dever de lutar contra um sistema feito para operar contra elas e contra tudo o que as ampara. Desvendar essa Justiça é garantir a nossa sobrevivência interseccional e a vida de nossas crenças ancestrais.


Voltando ao caso em questão, encontrei na internet um coletivo de advogados negros que presta apoio a essas vítimas na cidade onde aconteceu o fato e encaminhei para que a vítima siga em frente com assistência apropriada.


Expliquei ainda que provavelmente trata-se dos crimes de assédio e injúria racial e que por isso, é fundamental contar com um advogado que oriente a melhor estratégia de proteção em relação às duas searas. Essa proteção precisa se estender do tribunal à internet porque é lá que se denuncia, processa, julga, condena e cancela à luz do dia, sem processo e na velocidade do 5G. Façamos de nossas próprias redes mecanismos tão velozes e cuidadosos para acolher e orientar nossas vítimas quanto para temos feito para apontar seus agressores.




______

Para mais informações e auxílio judicial:

Associação Nacional da Advocacia Negra: http://ananadv.com.br


48 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo