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AVISO DE SPOILER: "cidadão de bem"

Autoria: Geizi Carla dos Santos: https://www.linkedin.com/in/geizicarladossantos / http://blog.rachacuca.io/


O profissional injustiçado.

Em uma sexta feira, às 10h da manhã, “João Cidadão de Bem” perdeu seu emprego. A notícia fez com que em poucos minutos, a programação do final de semana quente e ensolarado - que seria aproveitado na piscina do condomínio com sua esposa e dois filhos-, deixasse de ser tão atraente. Minutos após a notícia, passou a pensar nas possibilidades de trabalho que precisava encontrar rapidamente. Transpirando e muito nervoso, fez o caminho de volta para o lar.

Quando um pai de família se vê desempregado, o desespero e o medo de não ser capaz de cumprir com as necessidades da casa se tornam protagonistas na vida. Com “João Cidadão de Bem” não seria diferente. Ser um publicitário com mais de 15 anos de experiência, supostamente, respeitado na área de comunicação, favorecia suas oportunidades, exceto pelo fato de que, agora, ele continha em sua carreira uma demissão difícil de ser explicada.


Mais um profissional desempregado. Um pai e esposo que precisava se recolocar no mercado o quanto antes. Como em todos os casos de desemprego, a insegurança só se dissiparia com uma nova contratação. Para João, somente com uma excelente contratação o seu nome seria bem visto novamente.

Ao chegar em casa, tentou explicar para esposa o motivo da demissão. A explicação que lhe ofereceu foi seca e obviamente, não verdadeira: usou a crise e a justificativa de que empresa precisava cortar gastos para explicar a mudança repentina na vida da família. Muito solidária e compreensiva, a esposa fez o possível para que ele se sentisse seguro diante a situação e sem saber a verdade sobre a demissão, ofereceu apoio ao marido.

Em pouco tempo João iria se recolocar no mercado, a demissão seria esquecida e a mulher, os filhos, amigos e família, jamais saberiam a verdade sobre o cidadão. Além de procurar um novo emprego, precisava trabalhar arduamente para que a frágil e falsa imagem de bom marido e profissional permanecesse em pé. Agora, mais do que nunca. Já que a verdade sobre o mal comportamento no trabalho havia sido revelada.

Diante da família e de amigos, João se mostrava honesto e honrado, mas no dia a dia em seu trabalho, longe da esposa e dos filhos, deixou repetidas vezes de lado o pudor e o bom senso, e passou usar a sua posição de coordenador para abusar e assediar psicológica e sexualmente as mulheres que trabalhavam para a sua equipe. Com a certeza de que sempre sairia impune, não recuou em nenhum dos desesperados pedidos de suas vítimas. Ciente de que sua posição o favorecia, não ousou recuar ou evitar o assédio. Atreveu-se tanto, até que finalmente, o dia da revelação chegou...

A profissional invisível.

“Maria Sem Nome” conquistou o seu primeiro emprego em agência de comunicação logo após concluir a faculdade. Empolgada para colocar em prática tudo o que aprendeu, estava decidida a oferecer sua melhor versão em seu novo emprego. (Sem imaginar que os pedidos e as exigências não seriam exatamente profissionais).

Já nas primeiras semanas notou a aproximação de João. Os dias passaram a ser preenchidos com insistências para que ela participasse de reuniões desnecessárias, recebesse ligações frequentes com pedidos inusitados e comentários indiscretos sobre a sua aparência.

Atitudes que lhe deixavam desconfortável, mas que não foram capazes de fazer com que ela notasse as verdadeiras intenções do seu superior. Com a foto da família em sua mesa, a bíblia encaixada cuidadosamente, Maria jamais imaginaria, que as atitudes de João, o cidadão de bem, iriam lhe trazer tanto sofrimento.

Ligações fora de hora e convites para cafés durante o expediente, piadas indiscretas que se transformaram rapidamente em comentários apelativos sobre a aparência, elogios desnecessários e variadas insinuações incabíveis para o ambiente de trabalho.

A jovem comunicativa, espontânea e prestativa, sempre tentou enxergar a situação como algo que pudesse se esquivar e controlar sozinha. Ficou assustada no dia em que, dentro do elevador, após elogiar a sua boca “carnuda”, sem pudor, ele agarrou a sua mão e a colocou no meio de suas pernas, em cima de seu “pau” ereto. Sem saber o que fazer, retirou a mão assim que ele “permitiu” e se silenciou. Não foi capaz de dizer a ninguém, não conseguiu olhar nos olhos dele e dizer que aquilo era inadmissível.

Compreendeu que a situação não era nada amigável ou profissional, e que a ela, caberia se esquivar das investidas. Com medo de perder o emprego, sozinha e se sentindo culpada, decidiu não expor o caso. O silêncio deu ao coordenador ainda mais espaço… Em uma festa de comemoração da empresa, seguiu-a até o banheiro, entrou sem ser notado e tentou o sexo a força. Sozinha, tentou se esquivar, gritar, se defender. Lutou contra as mãos firmes e pesadas sobre seus peitos, coxas entre suas pernas. O desespero de não ter forças para se livrar do corpo, que insistia em estar dentro dela. Quando pensou que não escaparia, conseguiu se desvencilhar do agressor e finalmente saiu do local. Aos prantos, não retornou à festa e sem condições de dirigir, pediu um taxi e foi para casa. Na segunda-feira, estava novamente em seu trabalho. Tentando esquecer o episódio, pediu para que fosse transferida de setor. Com a autorização passou a trabalhar distante do agressor, que não aceitou a distância.

Os dias e meses que se seguiram foram preenchidos com longas e intensas crises de ansiedade, síndrome do pânico, burnout, medo frequente de ser exposta, medo de perder o emprego. A angústia e o sofrimento eram tantos, que os sintomas precisaram ser contidos com remédios controlados.

Somente meses depois, em uma conversa com uma colega de trabalho, percebeu que algo realmente não estava certo. Ao insistir, a companheira relatou os abusos que estava sofrendo do mesmo profissional. Revoltada, ela decidiu finalmente, compartilhar com a ouvinte os episódios que sofreu. Após conversarem bastante, decidiram finalmente levar isso à direção da empresa. A partir de um desabafo sincero entre duas mulheres, João entrou para a lista dos desempregados e passou a, desesperadamente, tentar esconder de sua família o verdadeiro motivo de sua demissão.

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João não é vítima da crise, muito menos um sofredor. Escolheu causar dor e sofrimento para satisfazer seus desejos sexuais dentro do seu ambiente de trabalho.

Sua demissão foi resultado de suas ações e claro, que nem de longe, será capaz de amenizar o sofrimento causado na vida pessoal e profissional das mulheres que foram assediadas e abusadas. Dentro da lei, João pagou o preço mínimo pelos seus atos. Enquanto isso, as mulheres que sofreram com suas atitudes, buscam diariamente se recuperar.

E ainda que as cicatrizes e traumas sejam difíceis de esquecer, a coragem e força de cada uma delas, unidas para denunciar um abusador camuflado de profissional exemplar, nos traz a esperança de que atitudes como estas possam não passar impunes, cada vez mais.

“A mudança, a partir das denúncias traz resultados positivos para todas. Se você foi ou está sendo vítima de assédio em seu ambiente de trabalho, procure ajuda.”

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* As crônicas são baseadas em experiências reais de mulheres, profissionais, atuantes no mercado de Comunicação do Brasil. Por isso, criteriosamente preservamos a identidade de cada participante dos grupos administrados pelo Empatia Criativa.

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