• Empatia Criativa

A sutil arte de engolir o choro

Autoria: Geizi Carla dos Santos: https://www.linkedin.com/in/geizicarladossantos / http://blog.rachacuca.io/

Setembro está chegando ao fim, e, com ele, todas as campanhas sobre saúde emocional e psíquica estão sendo encerradas. A partir de agora, o assunto não entrará mais em pauta, pelo menos, pelos próximos 11 meses. É comum darmos atenção a temas que estão em alta no ambiente coorporativo de comunicação e é claro que com esse assunto não seria diferente. Simplificando, as abordagens ao tema acontecem do dia 1 ao dia 30 de setembro. Fim.

Bom, como o mês ainda não acabou, vou me arriscar por estas linhas para não ser silenciada pelos próximos 11 meses.

Eu quero falar sobre chorar e sobre profissionais que passam a vida a engolir o choro. Quantas vezes você já chorou no ambiente de trabalho ou por causa do seu ambiente de trabalho. Ou quantas vezes presenciou alguém chorando em seu trabalho?

Ao relembrar de algumas cenas da minha infância, e contrapondo com situações vivenciadas no ambiente de trabalho, percebo que a falta de tato com sentimentos e emoções está presente em nosso dia a dia de maneira catastrófica. Aparentemente o não entendimento sobre como falar de maneira saudável e agir diante das emoções é tido como corriqueiro e inofensivo. Mas definitivamente não é.

Quando criança, minhas crises de choro eram frequentes e sabe como elas eram resolvidas? Meu choro era silenciado, através de ameaças e impaciência. A maneira mais rápida e prática que um adulto encontrava para me controlar era emitir a tão famosa frase: engole o choro!

Cresci ouvindo esta frase e acredito que eu não tenha sido a única criança a receber essa resposta para os momentos de choro “descontrolado e supostamente sem sentido " na visão de um adulto controladíssimo”. Quanta agonia eu sentia em tentar engolir o choro!

Engasgava.

Tremia.

Soluçava.

Respirava fundo.

Sentia medo, muito medo do que viria se o choro não parasse e, então, finalmente, as lágrimas secavam e davam espaço ao rosto vermelho, aos olhos inchados e às mangas da camiseta encharcadas. Mas a dor permanecia ali.

O fim do choro sempre acontecia da mesma forma: com um adulto por perto fazendo com que eu me sentisse culpada por estar chorando. Um professor, uma tia, um tio, um vizinho ou os meus pais, havia sempre alguém me ameaçando para que eu controlasse as lágrimas.

Hoje para controlar o choro dos adultos, fazemos exatamente igual ao que os adultos fizeram e ainda fazem com muitas crianças. Obrigamos que todos engulam o choro.

No mundo coorporativo a frase foi substituída por negligências e julgamentos; por excessos de cobranças, por ausências de responsabilidades, por falta de empatia e interesse com o bem-estar emocional dos profissionais. Em um ambiente de trabalho, quando uma mulher chora, a primeira coisa que se faz é pedir para que ela vá ao banheiro mais próximo, se acalmar, lavar o rosto, retocar a maquiagem etc. Engraçado pensar que a tática é a mesma. Assim como quando uma criança chorava e o adulto presente não tinha o mínimo de tato para sentar-se ao lado dela e tentar compreender o sentimento que a levava ao choro, forçando-a parar de chorar. Agora enquanto adultos e profissionais, pedimos para que pessoas que estão abaladas emocionalmente chorem sozinhas no banheiro e engulam rapidamente o choro para dar sequência as responsabilidades do trabalho, que, claro, não podem esperar.

Nós, adultos, às vezes, choramos por não aguentar a pressão, a desigualdade, a falta de respeito com nosso lado profissional, com nossos sentimentos. As lágrimas nos chegam por infelicidade, insegurança, medo e muitas vezes, por precisarmos de ajuda. Choramos e nos reerguemos, assim como as crianças fazem. O problema é que o choro é tido como fraqueza, como vergonha, como algo a ser contido imediatamente e não como um sinal de que algo precisa ser notado, analisado, transformado.

Enquanto adultos não nos propomos a entender que a saúde emocional está relacionada também com o ambiente de trabalho. Queremos a todo custo conter o choro, mas não há muito esforço para entender o que causa o choro.

Lembro-me de uma vez, na casa da minha avó paterna, quando passei 3 horas chorando sem parar, e todos os adultos me perguntaram rispidamente do porquê das lágrimas. A insegurança não me deixou confortável para falar diante de todos o meu motivo. Entre risadas e conversas desconexas, me deixaram ali, chorando. Adormeci aos prantos e não tive coragem de falar que eu chorava porque minha avó paterna tinha me ofendido de maneira agressiva e impiedosa. Aos adultos presentes, eu era uma chorona, que não merecia atenção. Mas olhando para aquela cena, eu me lembro da minha avó, sentada na sala em silêncio, enquanto ela sabia que era ela a causadora do meu choro. Seria um fato isolado se eu não percebesse esse comportamento de negligenciar o choro em todos os cantos.

Principalmente no ambiente de trabalho, quando choramos e os outros sistematicamente ignoram e desprezam nossos sentimentos, talvez seja porque todos de alguma se reconhecem como causador do sofrimento. Convenhamos que um líder sabe quando não está oferecendo dignidade, salário justo, respeito profissional aos seus colaboradores e, por saber, muitas vezes ele prefere ignorar o tema: saúde emocional. Muitos preferem tocar nesse assunto em setembro e fazer campanhas somente para os seus clientes e nunca abordar o tema de maneira profunda e responsável internamente.

Fecham os olhos para não notar a qualidade da saúde mental dos profissionais que compõem o seu time. E ainda, em muitos casos, culpabilizam e punem as pessoas em tratamento psicológico. Diariamente, pedem para que todos engulam o choro, pois assim, não precisam praticar mudanças significativas em uma estrutura de trabalho completamente adoecida.

Setembro está acabando, mas o cuidado com a nossa saúde mental deve permanecer para além de um cronograma de ação publicitária. Precisamos reconhecer que os ambientes de trabalho estão adoecidos e que sertralina, quetiapina, rivotril, venlafaxina, frontal, depakote, risperidon não serão capazes de amenizar sozinhos os danos causados por um ambiente nocivo. Enquanto continuarmos engolindo o choro, o problema continuará a crescer exponencialmente e está mais que claro, que, um mês para falar sobre isso, não é o suficiente.

Qual o nosso papel e responsabilidade diante da dor do outro?


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*As crônicas são baseadas em experiências reais de mulheres, profissionais, atuantes no mercado de Comunicação do Brasil. Por isso, criteriosamente preservamos a identidade de cada participante.

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